O mundo existe dentro de você

Meu bem, não chore
Agora nem tem mais o que fazer
Respire fundo
Com calma tudo vai acontecer
As ondas seguem indo e vindo
Mesmo se você não vê
As grandes dúvidas desaparecem
Quando o Sol aparecer
Meu bem, não chore
Você já é o que queria ser
Respire fundo
O mundo existe dentro de você
O céu está sempre estrelado
Mesmo se você não vê
As grandes dúvidas desaparecem
Quando o Sol aparecer

A vida tem daquelas coisas que acontecem e nos deixam sem rumo, atordoados. Passar por esses momentos não é fácil e exige de nós um desprendimento muito grande, às vezes do passado, da posse e até do sentimento – arredio ou bravio – que encastela dentro de nós. Tem vezes que encontramos algo que nos fala forte, como um texto, um filme ou um disco. Dessa vez Tim Bernardes falou alto pro meu coração com seu Mil Coisas Invisíveis. Parece que para ele, o que se passa aqui dentro, nem é tão invisível assim.

Eu queria falar de cada uma das faixas, mas não sou crítico musical, e a posse que fiz da obra é muito mais no campo emocional do que no racional. Não conseguiria falar sem esbarrar nas coisas que ainda ardem aqui dentro do meu peito e que me tomam de assalto. E, confesso, estou cansado. Rogo para o dia que tudo aqui dentro se abrande e eu possa – não sem cicatrizes, claro – seguir minha vida adiante. Por enquanto eu vivo entre limites e na busca por tentar entender. Ainda despreparado para qualquer salto, com medo da possível queda que eu possa ter.

Mas de tudo, o que me tocou mais forte foi a última faixa: Mesmo Se Você Não Vê.

Me soou como um alento, uma ponta de esperança como a própria canção diz “quando o Sol aparecer”. Uma grata surpresa que devo ter ouvido algo como duas dezenas de vezes (coisas do Asperger). Estou tentando respirar fundo, na tentativa das grandes dúvidas desaparecerem e buscando o mundo que existe dentro de mim.

“O céu está sempre estrelado, mesmo se você não vê.”

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Do que sentimos e não podemos dizer

Todos me contam, num olhar de acônito, como se eu estivesse errado, que um dia vai passar. Do que hoje é memória lúgubre amanhã é memória ferial. E que chega um tempo, que não sei qual o tempo, nem memória fica e o passado se mistura como água de delta, sem que aquilo faça mais percurso dentro da gente. Da imensidão e infinitude do universo eu só consigo me perceber, das dores que tive, das que eu ainda tenho e daqueles que porventura – da natureza de estar vivo – ainda vou ter. É de um egoísmo sem tamanho, mas é o único tamanho que me cabe hoje, daquilo que mal digere, não no estômago, mas no coração, porque é sentimento mal resolvido, sentimento mal dito.

Sei que do tempo nada escapa, nem a cicatriz que insiste em doer toda vez que o clima se torna mais ou menos bravio. Da mesma forma que o coração se aperta ao passarmos por algum ou outro lugar que a memória nos desperta. Mas parece que estou fugindo do tempo, inocente e crente de que isso é possível, no intuito de um dia, talvez, conseguir falar tudo aquilo que eu sinto, tudo aquilo que eu senti, tudo aquilo que me transborda e eu não sei lidar.

Diante de mim a imensa porta, fechada, trancada, intransponível. De trás de mim uma escadaria imensa, íngrime, de degraus curtos e altos, que não me contempla uma descida tranquila. Não posso ir, nem voltar. Estou parado, aguardando. Quem sabe a porta se abre, quem sabe eu consiga descer sem me machucar. Mas hoje, pelo menos hoje, eu me sento e contemplo e espero. O que pode vir? Nada, como talvez tudo. Não tenho muito mais a perder, já que não resta muito. Também não acredito que eu tenha lá muito mais a ganhar, já que não sou merecedor de nada. E qualquer esmola prum vadio qualquer, perdido e andarilho nos campos das emoções, é fortuna sem fim, é riqueza desmedida.

Talvez eu esteja me contentando com pouco. Mas é difícil querer muito quando não se considera ser algo que o valha. Nisso, sentado entra a porta e a escadaria, eu espero. Numa oração ao tempo, pedindo que este seja forte e leve tudo para o longíquo passado; numa oração a todos que me cercam, pedindo que eu seja no mínimo acalentado. Daqui guardo o silêncio, na esperança de que um dia ele cesse, se torne diálogo, sentimento e razão, para deixar os dias menos atribulados, atormentados e até, quem sabe, mais coloridos.

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Cinza

Tem dias que são mais preguiçosos, por arrastarem consigo sentimentos que insistimos em afastar. Talvez como uma mexa de cabelo insistente, ou a inoportuna coceira de um pernilongo voraz, acabamos por nos acostumar com a situação e ela segue existindo, mas sem aquele incômodo que nos afeta. Mas numa pausa, dessas que fazemos para um café aguado, ou um cigarro amassado esquecido no bolso, acaba que aquele nó se aperta e nos traímos com o coração descompassado, na inútil fuga de não sentir.

Por hoje saí antes do Sol nascer, com a mochila às costas e as cantigas de Arthur Verocai aos ouvidos (preciso escrever sobre ele). Me peguei pensando sobre quantas vezes eu teci sonhos e alimentei esperanças, enquanto caminhava seguindo para o trabalho. E como já caminhei seguindo para o trabalho. Perdi esse hábito nos últimos anos, mas pretendo recupera-lo, não só pela saúde física – que se esvai – mas também pela saúde mental – que já se esvaiu há muito. Mas não é sobre meus fracassados projetos de emagrecimento que pretendo falar. Por hoje me peguei pensando sobre o quão fui largando meus sonhos e me deixando levar pelo cotidiano. Como se o tempo fosse infinito. Senti um amargo na garganta, como se a derrota tomasse conta de mim. Pensei em até dar meia volta e inventar qualquer desculpa para não ir trabalhar. Mas isso não resolveria nada e eu continuaria frustrado.

E ao largo do dia me peguei pensando que, há uma década atrás, eu não me contentaria com o pouco que eu me contento hoje. Percebi que vivi de migalhas, acreditando que isso seria meu sustento, no sentido de que tomei, como verdade absoluta, a possibilidade de ser aquilo que outros quiseram que eu fosse. E o dia foi longo, no sentido que perdi boa parte dele me remoendo de culpa por deixar de lado tudo aquilo que sonhei pra mim.

Me envolvi, acreditando ser aquilo uma obra terminada, ou um destino manifesto. No fim sobraram-me lágrimas, entulho, escombros e aquele seco na garganta que dá, quando você sem querer lembra. E hoje acabei por lembrar demais, tanto que engoli a comida por uma obrigação mecânica, sem perceber gosto ou textura. Afinal tudo já estava amargo por demais, seco por demais, doloroso por demais.

Sei que meus textos seguem aqui melancólicos. Como se não houvesse alegria no mundo ou no meu cotidiano. A questão é que preciso escrever, para ordenar meu universo e assim dar sentido ao meu existir. Hoje sigo melancólico, talvez daqui um tempo eu esteja escrevendo crônicas cômicas, quem sabe sonetos de cavalaria ou até poesia concreta. Sigo escrevendo, sem me preocupar se serei lido ou entendido. O que sai das pontas deus meus dedos, nasce no coração.

Hoje foi um dia cinza, de diversos tons, mas cinza.

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Das cartas que escrevi

Houve um tempo em que escrevi cartas. Melhor: houve um tempo em que eu mandava as cartas que escrevo.

Carreguei, como num embornal, esperanças e sentimentos que nunca viram a vida fora do papel. Ali nasceram e morreram e jamais receberam resposta. Talvez por eu ter algo de juvenil em meu peito e acreditar que as pessoas possam, de alguma forma, sentir algo de concreto diante das coisas da vida. Sou dito um doido, minha avó ja me alertava, por acreditar que havia sentido no existir. E hoje percebo que no caos do cotidiano, não há muito com o que se agarrar, já que ninguém sabe exatamente o que está fazendo. Mas mesmo assim, permaneço escrevendo cartas. À mão, em letras desairosas – porque creem que serão lidas – cheias daquilo que meu coração já não suporta guardar.

Mandei várias cartas, nunca recebi respostas. Mas dizem que toda carta tem resposta, e a falta dela é uma, mesmo que seja àquela que não gostaríamos de receber. Mas mesmo assim, permaneço escrevendo e tentando buscar nas palavras um significado que me mostre, para além da razão cotidiana, qualquer coisa de concreto ou até plástica para que possa me apegar. Nem sempre tenho sucesso, mas o exercício, tal como a caminhada pela estrada durante a aurora, acaba nos surpreendendo e nos deixando quase debaixo de uma espécie de serração mística. Nas letras tortas, mal riscadas, deixo um pouco do sangue que é bombeado para além do meu existir. Sangue que já percorreu meu corpo, leu meus sentimentos, oxigenou minha mágoas e agora já não mais quer fazer parte desse todo mal formado que sou eu.

Sei que meus textos guardam um tom melancólico, que sempre fez parte da minha vida. Raramente encontrei a felicidade, que sempre me foi tirada pelo peso da responsabilidade, pela dificuldade em ser compreendido, ou pela falta de paciência com meus limites. E assim sigo, não perseguindo a felicidade, mas aguardando que os dias tragam algo de novo, mesmo que seja um sentimento velho.

Hoje resolvi meditar e tentar entender porque alguns nós persistem em minha garganta, calando meu peito. Não cheguei a conclusão nenhuma, mas a experiência mística me chama a atenção pela forma que sempre conduzi esse tipo de atividade. Vi e senti coisas, mas não sei o que elas significam. Ou se de fato possam ter algum significado. O que é de válido nisso tudo é saber que ainda há algo a ser explorado, mesmo que internamente.

Dentro das transformações que passei percebi que eu estava perdendo parte da minha essência, ao deixar de escrever. Nunca escrevi para ninguém, sempre foi pra mim. Inclusive minhas cartas. Mesmo endereçadas, dedicadas, ali sempre fui eu, por mim, para mim. É parte de mim que sai de mim. Só fui entender isso depois que li as cartas de Caio Fernando Abreu. As cartas eram todas sobre ele e para ele. Nunca me preocupou quantas pessoas estavam lendo esse blog, se alguém de fato lia qualquer das coisas que eu escrevia, ou tinha algo para ser comentado. Daqui eu tenho apenas a vontade de me expressar, da melhor forma que consigo, que é escrevendo. Não sou de pintar, desenhar, compor. Não sei dançar, cantar, nem me arrisco a fazer qualquer coisa de radical. Sei escrever, mesmo que de forma medíocre, mas que basta no intento pessoal de não solapar debaixo dos sentimentos e agruras que acumulamos dia após dia.

Permaneço escrevendo cartas, mas não tenho mais para quem mandá-las. Talvez elas vão se acumular no fundo de um baú, ou dentro de uma caixa de sapatos, guardada debaixo da cama, entre a poeira do tempo e do sentimento. Quem sabe se um dia a velhice vier, sã e forte, eu tenha coragem de abri-las novamente e medir, talvez com os olhos marejados, o quanto ter escrito elas tenha valido à pena. Por enquanto permaneço aqui.

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Da fuga que fazemos de nós

Diante de um espelho oxidado, com um barbeador barato, desnudo em um banho frio, num banheiro apertado e fétido. Envolto com as diversas incertezas que a vida me deu, em troca das certezas vacilantes, como num escambo injusto. Não sou quase nada daquilo que eu queria ser, mas tenho muito daquilo que não queria pra mim. Sofro com as escolhas erradas, com a confiança quebrada e com as lembranças daquilo que poderia ter sido. Já não sou jovem e o viço aos poucos vai partindo do meu corpo. Lá e acolá um fio branco se aponta no cabelo, na barba. No entorno dos olhos marejados as marcas das noites mal dormidas, talvez mal vividas. O chuveiro cisma em não aquecer, quando no fundo não quero a quentura da água, mas da alma. Essa cada vez mais fria, torpe num cotidiano que não deixa marcas, só sombras. Dia após dia, consumido por uma maldita roca, tecido por uma moira cega, mas frenética. Sou esmagado pelo peso do meu coração.

Houve um tempo em que acreditei. Dei aquilo que poderia dar, na busca por algo que talvez me completasse, num poema mal rimado, um soneto mal dividido, numa expressão talvez até cafona. Minha vida se resumiu numa busca e no encontro daquilo que jamais esperava. Hoje caminho vacilante, não por medo, mas por não ter força ou vontade de pisar firme. Dizem que se eu continuar adiante, mesmo que arrastado, eu encontrarei novo sentido ou nova forma que possa tomar. Não creio. Não creio porque ancorar esperanças em algo que não depende exclusivamente de mim, não é de diligente sabedoria, pelo contrário. Se de todos os tombos que tomei, além das cicatrizes que permaneceram – por escolha minha, de forma eu sempre lembrar – é a lição de que o caminhar não pode ser desatento, muito menos sem escoras e sem descanso. Pode ser solitário, mas dificilmente será inabitado e aí temos o perigo.

A fuga que empreendemos de nós é o bálsamo que buscamos para as dores do mundo. A difícil verdade em encarar a realidade, que é cinza, as vezes incolor, raramente matizada. Da melancolia que sempre tive, como um fio que ata minh’alma ao devaneio púrpura de um Sol que se esvai para dar lugar a uma noite perene. Não sou a melhor pessoa para iluminar outras, mesmo que àqueles que insistem em me orbitar, se hipnotizam pela luz artificial, tal como moscas numa armadilha. Sou apenas caminhante, vacilante pelo peso das escolhas, que talvez encontre do outro lado da linha do horizonte a fuga de si.

Foi a busca de uma felicidade utópica que me entorpeceu e me fez desviar de meus propósitos e de minha crença. Sou aquebrantado, mas por burrice minha, por acreditar e por confiar. Por abrir o coração e ter como paga o silêncio acusatório. Hoje, diante do espelho, sei que a culpa foi minha, por não entender que há, para alguns, valores que não são os mesmos que os meus; crenças que não me abarcam e vontades que me repelem. Sou culpado por se eu, enquanto esperam – naturalmente – que eu seja outro. E o ser outro envolve abrir mão de minha essência. Sei que não sou a melhor pessoa do mundo e estou muito longe de querer ser. Mas sou verdadeiro naquilo que eu sinto e digo que sinto. E por ser assim, talvez, eu tenha que sofrer mais.

Promessas vacilantes já não me cabem mais. Só consigo crer no concreto e no realizado. Fora disso é devaneio, pode até ser poema, mas não é real. Cansei de me agarrar àquilo que não é fruto do meu suor, do meu esforço ou do meu sacrifício pessoal. Não posso fugir mais daquilo que sou, muito menos daquilo que quero pra mim. Abrir mão de minha essência, do conforto que sempre busquei para meu íntimo, é deixar de ser eu, vestir uma máscara que oculta o real. O espelho, mesmo manchado, me mostra a verdade e eu tenho que aprender a conviver com ela e abraçar ela como o resultado de tudo aquilo que eu fiz, de tudo aquilo que eu fui.

Não fujo mais de mim, da mesma forma que não espero que me aceitem. O amargo do bálsamo pelo amargo do féu. Não sei qual vale mais.

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Não há nada além do que não há

Cinco da manhã, latas de lixo
Todos os tabus vão despertar
Deita meu amor, ainda é cedo
Pra que tanto amor desperdiçar
E pra que sair diariamente
Não há nada além do que não há
Mais um guarda em cada esquina
Uma guerra de rotina
Deita meu amor, que rosto lindo
Que vontade, eu vou espreguiçar…
Não dê jeito na mobília,
Nem lembranças pra família
O cheiro da manhã, em nós

(Paulo César Gyrão de Castro / Gerson)

Alaíde Costa é daquelas musas que nos fazem brilhar o olhos de admiração e contemplação. A primeira vez que eu ouvi sua voz foi no consagrado dueto com Milton Nascimento, o samba Me Deixe em Paz, de autoria de Monsueto Menezes e Ayrton Amorim, no famigerado Clube da Esquina. Desde então eu comecei a perseguir essa intérprete de voz doce e sentimental e acabei por descobrir algumas jóias da Música Brasileira. No seu álbum Antes e Depois, de 1974, ela canta Diariamente de Paulo César Gyrão e Gerson.

Eu acredito que existem versões definitivas. Atrás da Porta, por Elis Regina; Beatriz, por Milton Nascimento; Diariamente por Alaíde Costa. A força que ela imprime nessa canção, o sentimento quase sólido que exala da sua voz, me deixa os olhos cheios. A versão de Alaíde me pegou desprevenido, indo para o trabalho, caminhando numa segunda nublada pela manhã, desesperançoso com o porvir, com o coração machucado e sem muito rumo.

Tenho canções para cada momento da minha vida, para cada desalento que meu coração sofre, para cada desatino de desesperança que solavanca o estômago e deixa a boca amarga. Alaíde me fez lembrar daquilo que poderia ter sido, daquilo que pouco durou e muito me deixou marcas. O cheiro da manhã ainda aparece, não sei se é real, ou se é só minha mente confusa pela solidão do despertar.

De tudo, além daquilo que um dia eu espero cicatrizar, ficou a lição de que não há nada além do que não há. É como faca incandescente entrando no peito, mas é tão verdadeiro. Tão forte. Eu contemplava o horizonte cinzento, enquanto a cidade despertava pelas primeiras horas, o movimento das pessoas, o rio preguiçoso, o casario centenário, as ruas de pedra e o alarido do comércio abrindo. Não há nada além do que não há.

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Uma análise do Primeiro Turno das Eleições de 2018

Escrevi esse texto em 10 de outubro de 2018, no contexto do resultado do Primeiro Turno das eleições presidenciais. Foi publicado em meu perfil do Facebook. Deixo aqui registrado.

Analisando alguns dados: Bolsonaro obteve um pouco mais de 49 milhões de votos. Mais do que Haddad e Ciro somados. Se somarmos os votos dos demais candidatos, eles passam o número de votos de Ciro, mas estão longe dos votos de Haddad e muito mais longe ainda da quantidade de votos de Bolsonaro.

Fala-se em transferência de votos, mas há mais especulações do que certezas nesse campo. Especulemos com um pouco mais de racionalidade.

Não creio que todo eleitorado de Ciro vote em Haddad. E mesmo se isso acontecer, não é possível vencer Bolsonaro. Eleitores de Alckmin e Amoêdo, partidos de oposição ao PT, sendo que o NOVO declarou neutralidade (e neutro, meus amigos, é só o sabão de coco), devem votar em Bolsonaro.

Daciolo conseguiu mais de 1 milhão de votos, ultrapassando Meirelles e Marina. Creio ser esse o “efeito Macaco Tião”. Caricato, oriundo de um partido pequeno, o PATRIOTA antigo PEN, teve um ótimo desempenho. Talvez parte dos votos aqui podem ir para Haddad, mas creio que vão engrossar Brancos e Nulos.

Meirelles é do MDB. Seus 1 milhão e 200 mil votos são uma incógnita. O cara lançou candidatura sem apoio do próprio partido. Mas é o efeito Amoêdo: poder econômico conta muito em uma eleição. De toda forma, acho mais certo essa turma apoiar Bolsonaro do que Haddad.

Marina foi uma espécie de cavalo paraguaio. Sempre insisti que sua ascensão se deu pelo acidente com Eduardo Campos em 2014. A comoção com a morte do candidato levou ela a figurar nas pesquisas como provável disputa no Segundo Turno. Amargou terceiro lugar. A prova veio agora, ficando em oitavo. Talvez seus eleitores possam migrar para Haddad.

Álvaro Dias tem seu nome circulando em correntes de Whatsapp desde a queda de Dilma. A lenda que uma mãe de santo previu que ele seria Presidente do Brasil. Bom, acho que só ele acreditou nessa mandinga. Seus quase 900 mil eleitores devem votar em Bolsonaro. Seu partido PODEMOS, antigo PTN, se declara não ser nem de esquerda, nem de direita, mas para frente.

Boulos e todo o PSOL tem forte simpatia pelo PT. Creio que esse eleitorado vote em Haddad. O eleitorado de Vera, do PSTU, nem tanto. Mas pela configuração do cenário, talvez haja alguma transferência de votos.

Ainda temos Eymael e Goulart Filho que não se elegeriam nem para Deputado. Mas numa virtual disputa voto a voto, como em 2014, esse fiel eleitorado se torna o fiel da balança.

Temos uma massa de 40 milhões de brancos e nulos que deve aumentar no Segundo Turno.

Olhando para esse cenário, duvido muito que Haddad ganhe. Se o fizer, vai ser apertado como fez Dilma em 2014.

O eleitor de Bolsonaro não muda seu voto nem se Cristo ressuscitado, coberto de chagas e chorando sangue pedisse. Ele não liga para projeto, para ideologia ou para qualquer coisa. Tem que tirar o PT do poder, apenas. Se isso vai custar suas férias remuneradas, seu décimo terceiro, parte do seu salário ou o que for? A culpa é do PT que quebrou o país. Se seus direitos, liberdades ou qualquer coisa for retirada? A culpa é do PT. Se tiver que pagar escola, consulta ou ter que aderir a Previdência Privada? A culpa continua sendo do PT.

Não adianta usar redes sociais. A bolha do Facebook me mostrou Ciro ganhando para Rainha da Inglaterra. O que você fala aqui, mostra aqui, expõe aqui, atinge um número tão pequeno de pessoas, que dá até um tom de ironia na coisa. Gastem suas energias em estudar, aprender um novo idioma, aprender um artesanato legal.

Se nem Ciro, nem Amoêdo e nem Marina conseguiram atingir brancos e nulos, não vai ser seu stories que vai fazer.

Está assustado pelo preconceito de amigos, familiares e colegas? Olha, não quero colocar lenha na fogueira, mas eles sempre foram assim, ok? A Tia Cotinha não gosta de viado.

Não adianta apelar para religião. Lá em Mateus, Jesus fala que é melhor ter um membro arrancado do que ter o corpo todo lançado ao inferno. Em Lucas fala numa parábola pra matar os inimigos. Em João ele desce o sarrafo nos camelôs do Templo. Fora o Velho Testamento, que o bicho pega. É muita gente que não sabe o terço e quer ensinar o crente a ser cristão. Minha gente, para que tá feio.

Provavelmente Bolsonaro é o próximo Presidente. Espero estar completamente errado, mas os dados mostram isso.

Futurologia? Crise aprofundada, sucateamento de serviços públicos e onda de violências.- Economizem. Cortem supérfluos desde já. Invistam em algum fundo mais conservador. Comprem dólares. Penhore joias. Tenha patrimônio para uma liquidez rápida em casos de emergências.

– Pratique exercícios e faça uma alimentação balanceada. Beba água. Preocupe com sua saúde agora. Talvez será preciso se desdobrar em mais de uma função e ter uma saúde equilibrada é essencial.

– Se você é funcionário público, comece a investir em um plano B. Algo para complementar sua renda no futuro ou abandonar o serviço público.

– Se você é aposentado ou pensionista, se preparem que Paulo Guedes vem aí.

– Se está com medo da onda de violências, aprenda defesa pessoal, passe a andar em grupos, evite sair a noite. Todo cuidado é pouco. Exclua redes sociais e evite chamar a atenção.

– Tire o passaporte. Se não tem, tire o passaporte.

Parece brincadeira, mas não é. Pessoalmente vejo muito mais racionalidade em preparar-se para um futuro de dificuldades do que ficar discutindo a irracionalidade de Bolsonaro com seus eleitores. É aquilo, alguém conhece algum eleitor do Collor?

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A miséria da alma e do corpo

_ Mamãe, vende eu pra Dona Julieta, porque lá tem comida gostosa.

Na inocência da pequena Vera, nos relatos de Carolina Maria de Jesus, vislumbramos os limites da vida humana, regrada à fome, à tristeza e à aflitiva incerteza do amanhã.

O Quarto de Despejo — diário de uma favelada, publicado em 1960, relata o cotidiano da extinta favela do Canindé, nas margens do rio Tietê, numa São Paulo que crescia e marginalizava cada vez mais. Com um português simples, por vezes com erros, um relato visceral do que é a fome e o Brasil real, sofrido dia após dia com o descaso do poder público e o preconceito da cor. Carolina, numa narrativa que por vezes nos enfadonha — acorda, sofre, cata, sofre, fome, sofre, fome, sofre, fome, fome, fome, fome — relata seu cotidiano como catadora de papel e metais, contando os centavos para conseguir dar de comer aos filhos. Revirando lixo, comendo aquilo que é descartado, por vezes envenenado. O cotidiano da favela, seus conflitos, suas personagens. Homens, mulheres, crianças. Fome, pobreza, álcool, morte, briga, prostituição. Caridade como afago da alma, justiça social como ilusão. O diário, documento histórico, traz figuras como Adhemar de Barros, Carvalho Pinto, Juscelino Kubistcheck, as eleições de 1958. A personagem Carolina é real, mulher pobre e preta, que nasceu, viveu e morreu na pobreza, apesar do sucesso de sua obra.

Carolina me ensinou a valorizar o simples, o comum. Me ensinou que a miséria humana é algo que nem Dante, em seu Inferno, conseguiu descrever. Mas ela, vivificada naquilo, maltrapilha que acordava na madrugada para catar pulgas, dava graças à Deus por conseguir lavar suas roupas, humilhada pelo suor de seu corpo, que dia após dia se supliciava para sustentar três filhos.

Carolina Maria de Jesus, na Favela do Canindé

“16 de julho de 1958 — (…) Não havia papel nas ruas. Passei no Frigorífico. Havia jogado muitas linguiças no lixo. Separei as que não estavam estragadas. (…) Eu não quero enfraquecer nem posso comprar. E tenho um apetite de Leão. Então recorro ao lixo.”

“24 de julho de 1958 — Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei em até suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estomago. E por infelicidade eu amanheci com fome. Os meninos ganharam uns pães duro, mas estava recheiado de pernas de barata. Joguei fora e tomamos café. Puis o unico feijão pra cosinhar.”

Carolina me ensinou a agradecer cada oportunidade que tenho na vida. Me ensinou a agradecer até as lágrimas que choro, a tristeza que tenho. A não reclamar, nem murmurar. Me ensinou que existe gente que sofre de verdade, que no nosso egoísmo diário há muito mais do que a caridade afetuosa, a parcelar a compra do terreno divino. O diário nos entra na alma como faca quente e nos faz pensar sobre as razões que nos levam a sofrer.

Para os orientais todo o sofrimento vem do apego. O apego que temos ao material, como também ao espiritual, nos faz sofrer. Nos faz criar expectativas que quando não são cumpridas, pelos mais diversos motivos, nos causam dor, queimam nosso alma, nos jogam a uma espécie de danação letárgica. O sofrimento que cultivamos, por muitas vezes, é uma ilusão. Não é como a fome de Carolina, de seus filhos, que era remediada muitas vezes com o que era encontrado no lixo, cozinhado no barracão mal arranjado entre a lama. Penso que a cada dia temos uma oportunidade nova em sermos gratos pelas possibilidades que nos desdobram. E que o mundo é justo, nos dando o entendimento — muitas vezes de difícil compreensão — que tudo tem um preço. E o que nos parece muitas vezes comezinho, para outro é a dor que inflige mais duramente seu espírito. A depressão que me acomete, a tristeza e a dificuldade em reagir perante os problemas, se torna tão pequena diante do que Carolina viveu, sofreu.

Somos nada, poeira de estrelas, vazios e simplórios ante a imensidão do Universo. Mesmo ao ateu, descrente do metafísico, a insignificância humana é visível. Bilhões de vidas que correm, rumo a algo desconhecido, a uma possibilidade de redenção, física, material ou até espiritual. Carolina só queria uma casa de alvenaria e comida na mesa. A alvenaria era para não sofrer mais com as goteiras, as pulgas, o chão de terra batida. E nós aqui, querendo entender o mundo, a vida, com problemas dos mais diversos. Quanto tá o quilo do pão? Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes da vida.

Nem todos tem pão. Carolina não tinha. Quando tinha era repartido com seus três filhos e no coração de mãe sofreu, ao vê-los com fome, implorar pelo pão que não tinha. Fome… Fome…

“13 de maio de 1958 — (…) Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou a pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha para Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome!”

Carolina posa, na janela de seu barraco, para divulgação de sua obra.

Publicado originalmente aqui

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Jubiabá e o caminho para casa (ou o sentido para a vida)

Ninguém sabia a idade do velho pai-de-santo. Sabia-se que era velho, muito velho. Curava as mazelas do corpo e da alma. Encomendava defuntos. Preparava unguentos. Vestia e dançava com os Orixás. Ali era Pai Jubiabá, o feiticeiro, o socorro dos pobres do morro do Capa-Negro. Mas a história que se conta não é a do velho, mas a de Antônio Balduíno: orfão, largado, malandro e livre. Estivador do cais, grevista. Foi boxeador, artista de circo, trabalhou nas lavouras de fumo. Teve várias mulheres, mas só amou uma. Lindinalva. Que era branca, sardenta e rica. Mas morreu pobre, prostituída, tuberculosa. Sepultada virgem, pois era apenas de Balduíno aquele corpo a qual ele nunca possuiu, mas sempre se deitava ao ter com outras mulheres a busca pelo amor.

O romance de Jorge Amado, publicado em 1935, narra uma Bahia pobre, de negros, de excluídos, de amores tortuosos e desencontros retilíneos. Mas acima de tudo narra o drama pessoal de Antônio Balduíno, o Baldo, e sua busca pessoal para encontrar seu lugar. Muitos se atiraram ao mar, na busca pelo sentido de suas vidas, outros o encontraram no arrabalde do cais, entre as ondas e penedos. Há quem o achou entre as coxas quentes de uma mulher, sob os voluptuosos seios que se inclinam de amores e prazer. Baldo encontrou na greve, na esperança do sustento do filho de Lindinalva — a quem, em leito de morte, jurou cuidar — nas amarguras e misérias do povo, no caminho do além-mar, de onde seus antepassados foram arrancados.

O velório de Viriato, o Anão — por Carybé

E é sobre o caminho que devemos seguir, sobre a vida que queremos levar, sobre aquilo que vale à pena viver, que o texto acabou por me despertar. Tenho vivido momentos de limite, de questionamento extremo sobre o que sou, o que quero e o que tenho. Olhar para trás e para frente, na tentativa de buscar um sentido tornou-se para mim insuportável. É como Viriato, o Anão, que por não ter ninguém se atirou ao mar, e nunca mais acordou, com o corpo cheio de siris, em uma lúgubre noite velado n’O Lanterna dos Afogados. Por não ter ninguém ele buscou e é na busca que acabamos por nos afogar.

Estou aprendendo a dizer não. A abandonar coisas. A tentar um novo sentido para aquilo que planejei para mim. E ao longo desses quase 30 anos que carrego, que confesso serem poucos, mas de certa forma bem vividos, tenho tomado uma nova relação sobre o que devo ser para mim e para os outros. É difícil, aqui dentro, ser diferente daquilo que sou, na eterna tentativa de agradar àqueles que me cercam ou me tomam. É como se o sentido da vida se encontrasse em estar afinado com as perspectivas alheias sobre o que podemos e devemos ser. Quebrar tudo isso é muito doloroso e é uma experiência de quase morte. Morte que, confesso, ansiei nos últimos dias.

Ao compreender Baldo em sua busca, me vi ali tentando ser alguém em meio a tantas perspectivas e vontades. Em sustentar coisas que, no fundo, não faziam mais parte de mim. Há tempo para tudo e eu não soube respeitar esse tempo. Hoje sofro as consequências de um corpo cansado e uma mente alquebrada que tenta se recuperar, em meio a um turbilhão de prazos, limites e julgamentos. Jogar tudo para o alto? Uma hora cai e pode ser pior.

O cais do porto da Bahia — por Carybé

Jubiabá sempre falava a Baldo que nós temos dois olhos. Um é o da piedade, o outro da ruindade. Devemos saber olhar sempre com os dois, no equilíbrio, o caminho do meio. Quando um dos olhos vaza — cega — perdemos a capacidade de ser piedosos ou a malícia que nos preserva. É momento de deixar os dois bem abertos, na tentativa de encontrar o sentido que tanto busco. Talvez eu cause conflitos, talvez eu me distancie, ou me aproxime de quem há tempos não vejo. Mas aqui dentro, devagarinho, as coisas mudam.

 

“Ali estava o caminho de casa”

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Em memória de Jacques de Molay

Jacques de Molay

18 de março de 2014 – 700 anos do martírio de Jacques de Molay

Nós te saudamos, nobre mártir Jacques de Molay. Que a luz de teus fogos funerários brilhe sobre nossas vidas e sua irradiação as purifique. Assim como nos saudaste naquele tempo saudamos-te hoje, através dos séculos que já passaram. Durante setecentos anos, os homens tem reverenciado teu heroísmo sem igual, tua inquebrantável fidelidade; e continuarão, em todos os anos futuros, inspirando-se em tuas virtudes. Nós, que temos adotado teu grande nome como patrono de nossa Ordem, oramos para sermos dignos de levá-lo, honrando-o como uma vida de reverência, patriotismo e tolerância; com uma vida de amizades sinceras, de amor filial, de honradez e de serviço à nossa Comunidade, nosso Estado e nossa Nação, imitando as lições que aprendemos da tua vida heróica e do teu martírio. Que saibamos aprender da crueldade as lições de bondade. Que a avareza nos ensine a lealdade. Que possamos viver tão nobremente quanto tu morreste!

POR DEUS, PELA PÁTRIA, POR DEMOLAY!

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