Não há nada além do que não há

Cinco da manhã, latas de lixo
Todos os tabus vão despertar
Deita meu amor, ainda é cedo
Pra que tanto amor desperdiçar
E pra que sair diariamente
Não há nada além do que não há
Mais um guarda em cada esquina
Uma guerra de rotina
Deita meu amor, que rosto lindo
Que vontade, eu vou espreguiçar…
Não dê jeito na mobília,
Nem lembranças pra família
O cheiro da manhã, em nós

(Paulo César Gyrão de Castro / Gerson)

Alaíde Costa é daquelas musas que nos fazem brilhar o olhos de admiração e contemplação. A primeira vez que eu ouvi sua voz foi no consagrado dueto com Milton Nascimento, o samba Me Deixe em Paz, de autoria de Monsueto Menezes e Ayrton Amorim, no famigerado Clube da Esquina. Desde então eu comecei a perseguir essa intérprete de voz doce e sentimental e acabei por descobrir algumas jóias da Música Brasileira. No seu álbum Antes e Depois, de 1974, ela canta Diariamente de Paulo César Gyrão e Gerson.

Eu acredito que existem versões definitivas. Atrás da Porta, por Elis Regina; Beatriz, por Milton Nascimento; Diariamente por Alaíde Costa. A força que ela imprime nessa canção, o sentimento quase sólido que exala da sua voz, me deixa os olhos cheios. A versão de Alaíde me pegou desprevenido, indo para o trabalho, caminhando numa segunda nublada pela manhã, desesperançoso com o porvir, com o coração machucado e sem muito rumo.

Tenho canções para cada momento da minha vida, para cada desalento que meu coração sofre, para cada desatino de desesperança que solavanca o estômago e deixa a boca amarga. Alaíde me fez lembrar daquilo que poderia ter sido, daquilo que pouco durou e muito me deixou marcas. O cheiro da manhã ainda aparece, não sei se é real, ou se é só minha mente confusa pela solidão do despertar.

De tudo, além daquilo que um dia eu espero cicatrizar, ficou a lição de que não há nada além do que não há. É como faca incandescente entrando no peito, mas é tão verdadeiro. Tão forte. Eu contemplava o horizonte cinzento, enquanto a cidade despertava pelas primeiras horas, o movimento das pessoas, o rio preguiçoso, o casario centenário, as ruas de pedra e o alarido do comércio abrindo. Não há nada além do que não há.

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Uma análise do Primeiro Turno das Eleições de 2018

Escrevi esse texto em 10 de outubro de 2018, no contexto do resultado do Primeiro Turno das eleições presidenciais. Foi publicado em meu perfil do Facebook. Deixo aqui registrado.

Analisando alguns dados: Bolsonaro obteve um pouco mais de 49 milhões de votos. Mais do que Haddad e Ciro somados. Se somarmos os votos dos demais candidatos, eles passam o número de votos de Ciro, mas estão longe dos votos de Haddad e muito mais longe ainda da quantidade de votos de Bolsonaro.

Fala-se em transferência de votos, mas há mais especulações do que certezas nesse campo. Especulemos com um pouco mais de racionalidade.

Não creio que todo eleitorado de Ciro vote em Haddad. E mesmo se isso acontecer, não é possível vencer Bolsonaro. Eleitores de Alckmin e Amoêdo, partidos de oposição ao PT, sendo que o NOVO declarou neutralidade (e neutro, meus amigos, é só o sabão de coco), devem votar em Bolsonaro.

Daciolo conseguiu mais de 1 milhão de votos, ultrapassando Meirelles e Marina. Creio ser esse o “efeito Macaco Tião”. Caricato, oriundo de um partido pequeno, o PATRIOTA antigo PEN, teve um ótimo desempenho. Talvez parte dos votos aqui podem ir para Haddad, mas creio que vão engrossar Brancos e Nulos.

Meirelles é do MDB. Seus 1 milhão e 200 mil votos são uma incógnita. O cara lançou candidatura sem apoio do próprio partido. Mas é o efeito Amoêdo: poder econômico conta muito em uma eleição. De toda forma, acho mais certo essa turma apoiar Bolsonaro do que Haddad.

Marina foi uma espécie de cavalo paraguaio. Sempre insisti que sua ascensão se deu pelo acidente com Eduardo Campos em 2014. A comoção com a morte do candidato levou ela a figurar nas pesquisas como provável disputa no Segundo Turno. Amargou terceiro lugar. A prova veio agora, ficando em oitavo. Talvez seus eleitores possam migrar para Haddad.

Álvaro Dias tem seu nome circulando em correntes de Whatsapp desde a queda de Dilma. A lenda que uma mãe de santo previu que ele seria Presidente do Brasil. Bom, acho que só ele acreditou nessa mandinga. Seus quase 900 mil eleitores devem votar em Bolsonaro. Seu partido PODEMOS, antigo PTN, se declara não ser nem de esquerda, nem de direita, mas para frente.

Boulos e todo o PSOL tem forte simpatia pelo PT. Creio que esse eleitorado vote em Haddad. O eleitorado de Vera, do PSTU, nem tanto. Mas pela configuração do cenário, talvez haja alguma transferência de votos.

Ainda temos Eymael e Goulart Filho que não se elegeriam nem para Deputado. Mas numa virtual disputa voto a voto, como em 2014, esse fiel eleitorado se torna o fiel da balança.

Temos uma massa de 40 milhões de brancos e nulos que deve aumentar no Segundo Turno.

Olhando para esse cenário, duvido muito que Haddad ganhe. Se o fizer, vai ser apertado como fez Dilma em 2014.

O eleitor de Bolsonaro não muda seu voto nem se Cristo ressuscitado, coberto de chagas e chorando sangue pedisse. Ele não liga para projeto, para ideologia ou para qualquer coisa. Tem que tirar o PT do poder, apenas. Se isso vai custar suas férias remuneradas, seu décimo terceiro, parte do seu salário ou o que for? A culpa é do PT que quebrou o país. Se seus direitos, liberdades ou qualquer coisa for retirada? A culpa é do PT. Se tiver que pagar escola, consulta ou ter que aderir a Previdência Privada? A culpa continua sendo do PT.

Não adianta usar redes sociais. A bolha do Facebook me mostrou Ciro ganhando para Rainha da Inglaterra. O que você fala aqui, mostra aqui, expõe aqui, atinge um número tão pequeno de pessoas, que dá até um tom de ironia na coisa. Gastem suas energias em estudar, aprender um novo idioma, aprender um artesanato legal.

Se nem Ciro, nem Amoêdo e nem Marina conseguiram atingir brancos e nulos, não vai ser seu stories que vai fazer.

Está assustado pelo preconceito de amigos, familiares e colegas? Olha, não quero colocar lenha na fogueira, mas eles sempre foram assim, ok? A Tia Cotinha não gosta de viado.

Não adianta apelar para religião. Lá em Mateus, Jesus fala que é melhor ter um membro arrancado do que ter o corpo todo lançado ao inferno. Em Lucas fala numa parábola pra matar os inimigos. Em João ele desce o sarrafo nos camelôs do Templo. Fora o Velho Testamento, que o bicho pega. É muita gente que não sabe o terço e quer ensinar o crente a ser cristão. Minha gente, para que tá feio.

Provavelmente Bolsonaro é o próximo Presidente. Espero estar completamente errado, mas os dados mostram isso.

Futurologia? Crise aprofundada, sucateamento de serviços públicos e onda de violências.- Economizem. Cortem supérfluos desde já. Invistam em algum fundo mais conservador. Comprem dólares. Penhore joias. Tenha patrimônio para uma liquidez rápida em casos de emergências.

– Pratique exercícios e faça uma alimentação balanceada. Beba água. Preocupe com sua saúde agora. Talvez será preciso se desdobrar em mais de uma função e ter uma saúde equilibrada é essencial.

– Se você é funcionário público, comece a investir em um plano B. Algo para complementar sua renda no futuro ou abandonar o serviço público.

– Se você é aposentado ou pensionista, se preparem que Paulo Guedes vem aí.

– Se está com medo da onda de violências, aprenda defesa pessoal, passe a andar em grupos, evite sair a noite. Todo cuidado é pouco. Exclua redes sociais e evite chamar a atenção.

– Tire o passaporte. Se não tem, tire o passaporte.

Parece brincadeira, mas não é. Pessoalmente vejo muito mais racionalidade em preparar-se para um futuro de dificuldades do que ficar discutindo a irracionalidade de Bolsonaro com seus eleitores. É aquilo, alguém conhece algum eleitor do Collor?

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A miséria da alma e do corpo

_ Mamãe, vende eu pra Dona Julieta, porque lá tem comida gostosa.

Na inocência da pequena Vera, nos relatos de Carolina Maria de Jesus, vislumbramos os limites da vida humana, regrada à fome, à tristeza e à aflitiva incerteza do amanhã.

O Quarto de Despejo — diário de uma favelada, publicado em 1960, relata o cotidiano da extinta favela do Canindé, nas margens do rio Tietê, numa São Paulo que crescia e marginalizava cada vez mais. Com um português simples, por vezes com erros, um relato visceral do que é a fome e o Brasil real, sofrido dia após dia com o descaso do poder público e o preconceito da cor. Carolina, numa narrativa que por vezes nos enfadonha — acorda, sofre, cata, sofre, fome, sofre, fome, sofre, fome, fome, fome, fome — relata seu cotidiano como catadora de papel e metais, contando os centavos para conseguir dar de comer aos filhos. Revirando lixo, comendo aquilo que é descartado, por vezes envenenado. O cotidiano da favela, seus conflitos, suas personagens. Homens, mulheres, crianças. Fome, pobreza, álcool, morte, briga, prostituição. Caridade como afago da alma, justiça social como ilusão. O diário, documento histórico, traz figuras como Adhemar de Barros, Carvalho Pinto, Juscelino Kubistcheck, as eleições de 1958. A personagem Carolina é real, mulher pobre e preta, que nasceu, viveu e morreu na pobreza, apesar do sucesso de sua obra.

Carolina me ensinou a valorizar o simples, o comum. Me ensinou que a miséria humana é algo que nem Dante, em seu Inferno, conseguiu descrever. Mas ela, vivificada naquilo, maltrapilha que acordava na madrugada para catar pulgas, dava graças à Deus por conseguir lavar suas roupas, humilhada pelo suor de seu corpo, que dia após dia se supliciava para sustentar três filhos.

Carolina Maria de Jesus, na Favela do Canindé

“16 de julho de 1958 — (…) Não havia papel nas ruas. Passei no Frigorífico. Havia jogado muitas linguiças no lixo. Separei as que não estavam estragadas. (…) Eu não quero enfraquecer nem posso comprar. E tenho um apetite de Leão. Então recorro ao lixo.”

“24 de julho de 1958 — Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei em até suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estomago. E por infelicidade eu amanheci com fome. Os meninos ganharam uns pães duro, mas estava recheiado de pernas de barata. Joguei fora e tomamos café. Puis o unico feijão pra cosinhar.”

Carolina me ensinou a agradecer cada oportunidade que tenho na vida. Me ensinou a agradecer até as lágrimas que choro, a tristeza que tenho. A não reclamar, nem murmurar. Me ensinou que existe gente que sofre de verdade, que no nosso egoísmo diário há muito mais do que a caridade afetuosa, a parcelar a compra do terreno divino. O diário nos entra na alma como faca quente e nos faz pensar sobre as razões que nos levam a sofrer.

Para os orientais todo o sofrimento vem do apego. O apego que temos ao material, como também ao espiritual, nos faz sofrer. Nos faz criar expectativas que quando não são cumpridas, pelos mais diversos motivos, nos causam dor, queimam nosso alma, nos jogam a uma espécie de danação letárgica. O sofrimento que cultivamos, por muitas vezes, é uma ilusão. Não é como a fome de Carolina, de seus filhos, que era remediada muitas vezes com o que era encontrado no lixo, cozinhado no barracão mal arranjado entre a lama. Penso que a cada dia temos uma oportunidade nova em sermos gratos pelas possibilidades que nos desdobram. E que o mundo é justo, nos dando o entendimento — muitas vezes de difícil compreensão — que tudo tem um preço. E o que nos parece muitas vezes comezinho, para outro é a dor que inflige mais duramente seu espírito. A depressão que me acomete, a tristeza e a dificuldade em reagir perante os problemas, se torna tão pequena diante do que Carolina viveu, sofreu.

Somos nada, poeira de estrelas, vazios e simplórios ante a imensidão do Universo. Mesmo ao ateu, descrente do metafísico, a insignificância humana é visível. Bilhões de vidas que correm, rumo a algo desconhecido, a uma possibilidade de redenção, física, material ou até espiritual. Carolina só queria uma casa de alvenaria e comida na mesa. A alvenaria era para não sofrer mais com as goteiras, as pulgas, o chão de terra batida. E nós aqui, querendo entender o mundo, a vida, com problemas dos mais diversos. Quanto tá o quilo do pão? Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes da vida.

Nem todos tem pão. Carolina não tinha. Quando tinha era repartido com seus três filhos e no coração de mãe sofreu, ao vê-los com fome, implorar pelo pão que não tinha. Fome… Fome…

“13 de maio de 1958 — (…) Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou a pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha para Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome!”

Carolina posa, na janela de seu barraco, para divulgação de sua obra.

Publicado originalmente aqui

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Jubiabá e o caminho para casa (ou o sentido para a vida)

Ninguém sabia a idade do velho pai-de-santo. Sabia-se que era velho, muito velho. Curava as mazelas do corpo e da alma. Encomendava defuntos. Preparava unguentos. Vestia e dançava com os Orixás. Ali era Pai Jubiabá, o feiticeiro, o socorro dos pobres do morro do Capa-Negro. Mas a história que se conta não é a do velho, mas a de Antônio Balduíno: orfão, largado, malandro e livre. Estivador do cais, grevista. Foi boxeador, artista de circo, trabalhou nas lavouras de fumo. Teve várias mulheres, mas só amou uma. Lindinalva. Que era branca, sardenta e rica. Mas morreu pobre, prostituída, tuberculosa. Sepultada virgem, pois era apenas de Balduíno aquele corpo a qual ele nunca possuiu, mas sempre se deitava ao ter com outras mulheres a busca pelo amor.

O romance de Jorge Amado, publicado em 1935, narra uma Bahia pobre, de negros, de excluídos, de amores tortuosos e desencontros retilíneos. Mas acima de tudo narra o drama pessoal de Antônio Balduíno, o Baldo, e sua busca pessoal para encontrar seu lugar. Muitos se atiraram ao mar, na busca pelo sentido de suas vidas, outros o encontraram no arrabalde do cais, entre as ondas e penedos. Há quem o achou entre as coxas quentes de uma mulher, sob os voluptuosos seios que se inclinam de amores e prazer. Baldo encontrou na greve, na esperança do sustento do filho de Lindinalva — a quem, em leito de morte, jurou cuidar — nas amarguras e misérias do povo, no caminho do além-mar, de onde seus antepassados foram arrancados.

O velório de Viriato, o Anão — por Carybé

E é sobre o caminho que devemos seguir, sobre a vida que queremos levar, sobre aquilo que vale à pena viver, que o texto acabou por me despertar. Tenho vivido momentos de limite, de questionamento extremo sobre o que sou, o que quero e o que tenho. Olhar para trás e para frente, na tentativa de buscar um sentido tornou-se para mim insuportável. É como Viriato, o Anão, que por não ter ninguém se atirou ao mar, e nunca mais acordou, com o corpo cheio de siris, em uma lúgubre noite velado n’O Lanterna dos Afogados. Por não ter ninguém ele buscou e é na busca que acabamos por nos afogar.

Estou aprendendo a dizer não. A abandonar coisas. A tentar um novo sentido para aquilo que planejei para mim. E ao longo desses quase 30 anos que carrego, que confesso serem poucos, mas de certa forma bem vividos, tenho tomado uma nova relação sobre o que devo ser para mim e para os outros. É difícil, aqui dentro, ser diferente daquilo que sou, na eterna tentativa de agradar àqueles que me cercam ou me tomam. É como se o sentido da vida se encontrasse em estar afinado com as perspectivas alheias sobre o que podemos e devemos ser. Quebrar tudo isso é muito doloroso e é uma experiência de quase morte. Morte que, confesso, ansiei nos últimos dias.

Ao compreender Baldo em sua busca, me vi ali tentando ser alguém em meio a tantas perspectivas e vontades. Em sustentar coisas que, no fundo, não faziam mais parte de mim. Há tempo para tudo e eu não soube respeitar esse tempo. Hoje sofro as consequências de um corpo cansado e uma mente alquebrada que tenta se recuperar, em meio a um turbilhão de prazos, limites e julgamentos. Jogar tudo para o alto? Uma hora cai e pode ser pior.

O cais do porto da Bahia — por Carybé

Jubiabá sempre falava a Baldo que nós temos dois olhos. Um é o da piedade, o outro da ruindade. Devemos saber olhar sempre com os dois, no equilíbrio, o caminho do meio. Quando um dos olhos vaza — cega — perdemos a capacidade de ser piedosos ou a malícia que nos preserva. É momento de deixar os dois bem abertos, na tentativa de encontrar o sentido que tanto busco. Talvez eu cause conflitos, talvez eu me distancie, ou me aproxime de quem há tempos não vejo. Mas aqui dentro, devagarinho, as coisas mudam.

 

“Ali estava o caminho de casa”

Publicado originalmente aqui
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Em memória de Jacques de Molay

Jacques de Molay

18 de março de 2014 – 700 anos do martírio de Jacques de Molay

Nós te saudamos, nobre mártir Jacques de Molay. Que a luz de teus fogos funerários brilhe sobre nossas vidas e sua irradiação as purifique. Assim como nos saudaste naquele tempo saudamos-te hoje, através dos séculos que já passaram. Durante setecentos anos, os homens tem reverenciado teu heroísmo sem igual, tua inquebrantável fidelidade; e continuarão, em todos os anos futuros, inspirando-se em tuas virtudes. Nós, que temos adotado teu grande nome como patrono de nossa Ordem, oramos para sermos dignos de levá-lo, honrando-o como uma vida de reverência, patriotismo e tolerância; com uma vida de amizades sinceras, de amor filial, de honradez e de serviço à nossa Comunidade, nosso Estado e nossa Nação, imitando as lições que aprendemos da tua vida heróica e do teu martírio. Que saibamos aprender da crueldade as lições de bondade. Que a avareza nos ensine a lealdade. Que possamos viver tão nobremente quanto tu morreste!

POR DEUS, PELA PÁTRIA, POR DEMOLAY!

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Horizonte Vertical

Sem cortinas os olhos veem bem mais
O horizonte vertical
Recortando a luz que os olhos têm
Vendo um cartão postal

Ilusão ?
Ali na colina
Recria no olhar
Uma cor
Precisão
Partia o dia
Da rima
Nascia
Assim
Numa nota

Uma letra
Voz da canção

Em fantasias os homens mais que creem
Puro instinto animal
Retirando o Ó que o Zero, tem lá
Inventando um sinal

Tire a mão dos olhos
Põe
Suas mãos nos braços
Meus
Me abrace mais
Entre agora já
Tire as mãos e os olhos
Seus
Estarão nos olhos meus
Em qualquer lugar
Entra agora e traz
Você

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Escuridão

escuridaoFábio Coala sempre entendo bem aquilo que passamos…. E fazendo nossos olhos suarem. =)

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Milton

“…espero um pouco mais e aprendi

a ser como o machado

que despreza o perfume do sândalo…”

Eu não me lembro quando escutei Milton pela primeira vez, muito menos qual foi a primeira música. Provavelmente foi durante a adolescência, ou quase isso. O encanto, a euforia, o vislumbre sempre fizeram parte. Uma coisa que nunca consegui explicar, nunca foi racional. O sentimento que salta ao coração ao escutar a voz de Bituca, uma música dele, do Clube. Uma relação de intimidade, quase uma trilha sonora pessoal. Relutei por muito tempo em afirmar que tinha um determinado cantor, compositor, artista favorito. E hoje, sem medo posso falar que é Milton Nascimento. Toda sua obra, seu encanto, sua genialidade me tocam a alma. De uma forma que poucas coisas neste universo me tocam. Eu não consigo explicar! É tão entranhado em meu ser, em minha personalidade, a forma como suas músicas saltam à minha mente nas diversas situações da vida, como embalam minha emoções e sentimentos, como me sinto tão pequeno face à grandiosidade de sua arte.

Não sei quantas vezes li “Os Sonhos Não Envelhecem” do Márcio Borges. Provavelmente mais que uma dezena de vezes. Cada uma delas me trouxe uma experiência diferente, uma nova forma de ver cada canção. Cada momento ali relatado sempre busquei uma identificação, mas nunca consegui. Tudo aquilo faz parte de algo superior que minha geração, incapaz de expressar seus sentimentos, não vivenciou ou vai vivenciar. Há ali um esmero pela arte de viver e tornar cada momento único e assim alimentar a arte.

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“…de novo na esquina os homens estão

todos se acham mortais

dividem a noite, a lua, até solidão…”

Pela segunda vez fui a show do Milton. E o que pode parecer muito pequeno à maioria da pessoas, o que é apenas mais uma apresentação artística para muitos, há para mim uma relação muito maior. É aqui que me atrevo a remeter à carta escrita por Milton a Márcio Borges sobre seu encontro com Jeanne Moreau. Tudo o que Jeanne representava para ele, para sua obra, para sua vida sumia diante dela. E hoje, tudo aquilo que eu sentia por Milton sumiu diante de sua presença. E era ele ali.

Realmente, não é racional. Não quero que seja. As lágrimas que me lavaram o rosto hoje são a única explicação que consigo dar. E hoje, durante Travessia, me entreguei. Era como se ele cantasse para mim e eu estivesse só diante dele. Realmente, Gonzaguinha estava certo, Travessia é uma das coisas mais belas que existem. E durante Canção da América lembrei de cada bom momento que vivi com meus amigos e me vi não conseguindo abrir os olhos, já que as lágrimas não deixavam. E naquele universo turvo de luzes e cores só a sua voz ecoava, dentro do meu coração.

Até agora não consegui processar tudo isso. O quão foi incrível e sublime. O quanto tudo isso significou para mim. E mesmo parecendo tão pouco diante de uma miríade de coisas, para a maioria das pessoas, a mim é como a apoteose que atinge a alma e nos faz plenos.

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“…sei que nada será como antes, amanhã…”

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Ponta de Areia

Estou impressionado. Apenas.

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Leite e Mel

A primeira vez que escutei Jackson Carey Frank foi através do Electroma do Daft Punk. A voz ao mesmo tempo firme e suave, grave e serena, logo me encantou. Devo ter escutado I Want To Be Alone cerca de trinta vezes seguidas.

Jackson Carey Frank, ou Jackson C. Frank, nasceu em 1943 e praticamente teve uma vida marcada pelo trauma, depressão, tragédias pessoais e problemas psicológicos. Quando criança teve 50% do corpo queimado, devido a uma explosão na escola. Isso o afetou por toda a vida. Durante o tempo no hospital ele aprendeu a tocar violão e a cantar. Com o dinheiro do seguro vai até a Inglaterra onde grava seu primeiro (e praticamente único) álbum, produzido por Paul Simon. Jackson era tão tímido que tocava atrás de biombos.

Seus problemas psicológicos se agravam e o dinheiro do seguro começa a acabar. Ele volta para os Estados Unidos, onde casa-se e tem um filho. Seu filho, porém, morre de fibrose, o que acaba por piorar sua depressão. Ele passa a morar nas ruas, contrai problemas na tireoide e acaba sendo esquecido pela mídia. Achado por um fã ele é levado para Woodstock, onde começa a gravar alguns singles. Sua sanidade e voz já não eram mais a mesmas.

Enquanto morava nas ruas Jackson acabou levando um tiro de chumbo no olho, o que o cegou do lado esquerdo. Crianças estavam atirando, de forma indiscriminada, com espingardas de chumbo, acertando-o. Jackson Carey Frank morre de pneumonia um dia após completar 56 anos, em 1999.

Nunca fez sucesso em vida, apesar de sua canções serem executadas pelos principais cantores folks americanos. Toda a depressão, melancolia, tragédia e traumas é expresso em suas canções. Uma tristeza reconfortante, aguçada pelo dedilhado do violão e transcendente pelo tom de sua voz. Uma temática cotidiana, que nos faz refletir sobre o percurso da vida e a sua validade.

Há um sítio eletrônico mantido por fãs, desde 1997, como tributo a Jackson. Ele pode ser acessado aqui.

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