Decepção

Decepção. Está resumida minha semana. Decepção com a capacidade das pessoas, com as opiniões, com as ações.

É lamentável ver o quão reacionária é a sociedade brasileira e o quão longe ela está de alcançar prosperidade. Desejar um tratamento desumano para o igual só porque ele tem uma opinião diferente é o cumulo. Fico impressionado com os comentários absurdos vindo de pessoas que até então considerava minimamente instruídas.

Alguns estudantes da USP, inconformados com os rumos que a atual administração está dando para a Universidade, resolveram ocupar a Reitoria. Até aí nada de mais, afinal é de conhecimento geral que foi através de inúmeras ocupações que os estudantes conseguiram levantar diversas reivindicações. Ocupações que também ocorreram no decorrer das últimas três décadas, durante o período supostamente democrático. A ocupação é uma ferramenta extrema usada pelo Movimento Estudantil para ser ouvido e fazer cumprir suas pautas de reivindicações. É legítimo, como todo movimento popular.

Infelizmente a atual administração da Universidade não quis diálogo e logo solicitou a retirada destes estudantes por meio de medida judicial. Desocupação judicialmente concedida, um prazo, devidamente estipulado, deveria ser cumprido. Os ocupantes resolveram fazer assembleias para discutir os rumos a tomar. Às 05 da manhã, antes de se cumprir o prazo judicialmente imposto, uma força de cerca de 400 policiais armados foi deslocada para a USP. O objetivo era retirar os cerca de 80 alunos ocupantes.

Em meia a uma ação que, sem sombra de dúvidas, foi pautada pelo excesso de ambos os lados, vislumbramos um tratamento violento, truculento e totalmente desnecessário por parte da polícia. Houve agressão gratuita e descabida, ameaças e assédios além do descumprimento da lei.

Logo começaram a surgir nas redes sociais um movimento em favor da repressão à estes estudantes. Fiquei realmente impressionado com a quantidade de pessoas que afirmavam que eles realmente mereciam apanhar, que o cassetete era a solução para eles. Cheguei a ver manifestações a favor de uma punição muito mais violenta. Uma pessoa, publicamente, desejou a morte deles.

E aonde nós vamos parar?

Não concordo com a ação dos estudantes que ocuparam a Reitoria. Deslegitimaram uma decisão da maioria, que já havia concordado em se retirar da FFLCH. Houve excessos na ocupação, como a promoção de uma festa. Não havia uma pauta traçada, nem um plano de ação, faltou articulação. Mas não mereciam apanhar.

Não foi a tentativa de prisão, ilegal diga-se de passagem, de três alunos por estarem usando maconha que causou isso tudo. Isso foi um reducionismo imenso criado pela mídia (seja ela azul, vermelha ou marrom), que acabou convencendo boa parte da população. A tentativa de prisão foi o estopim de uma situação que já vem desde 2005: a ação truculenta da polícia dentro do campus. A questão não é a droga ou a eficácia da presença de uma força militarizada para conter violência, mas sim como esta força age no cumprimento de suas funções. Há na USP, e isso pode ser aferido por qualquer um, uma restrição das liberdades de ir e vir e além do constante constrangimento ocasionado pelas revistas. Alunos são tratados como criminosos, dentro de uma generalização repleta de elementos preconceituosos.

E o que mais me irrita é a horda de preconceituosos conservadores, sem o mínimo de preparação, protegidos convenientemente pela internet, extremamente reacionários e, na minha opinião, profundamente idiotas. Esbravejam contra a esquerda, contra o comunismo, contra a maconha e contra mais uma série de coisas que duvido muito eles saibam o que são. Abraçam o conveniente paradoxo de que os xiitas, como chamam aqueles que não compactuam com sua opinião, merecem a tortura e o descaso. Radicalismo só por parte deles.

E como isso se desdobrou! Wilmar Marçal, ex reitor da Estadual de Londrina afirmou em um texto que os cursos de Ciências Humanas são fáceis e que seus alunos não produzem nada de útil para a humanidade. O que nos leva a pensar que provavelmente ele comprou seu diploma, afinal ele não sabe o que é Método Científico. Um cidadão, nos comentários deste texto, afirmou que a Universidade pública foi criada para os “filhos dos ricos” poderem estudar no Brasil, que pobre não tem esse direito. Então melhor fechar os Restaurantes Universitários e Alojamentos Estudantis, que devem estar às moscas. Essa é a população que diz querer um país com menos corrupção e mais igualitário. Se dependermos dela nunca teríamos saída da Ditadura.

Meus problemas não são com a direita. Entendo os pontos de vista que ela adota, o tipo de sistema que ela prega. Meu problema é com a ignorância humana. É com a massa que espuma pelos cantos da boca ao gritar contra algo em que eles não tem o mínimo conhecimento. Que deseja a violência extremada para contornar as situações inconvenientes. Que parou de pensar (havendo aí o benefício da dúvida, afinal…).

Decepção, profunda decepção.

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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Uma resposta para Decepção

  1. Bruno, parabéns pelo texto.
    Essa onda de reacionarismo, que reproduz acriticamente os estigmas emprestados do repertório do PIG, é realmente lamentável… mas infelizmente, não é nada surpreendente.

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