O padre cantor na vila dos reacionários (ou sobre como funciona o município de Formiga-MG)

  Formiga é um município mineiro, situado na mesorregião do Oeste de Minas, com 65128[1] habitantes distribuídos em uma área de 1503,8 Km²[2]. Fruto de uma paragem para viajantes que transitavam pela Picada de Goiás, possui 153 anos de emancipação política e uma história basicamente comum às outras centenas de municípios pelo interior do Brasil. A economia é baseada na prestação de serviços, não havendo grandes indústrias. A produção industrial é dividida em unidades fabris de pequeno e médio porte, que atuam dentro de um sistema de economia familiar. A zona rural é retalhada em diversas propriedades e comunidades que vão da subsistência ao latifúndio. A maior folha de pagamento é a da Prefeitura, seguida pela do Governo Estadual e Governo Federal. Existem cinco emissoras de rádio e uma de televisão; três jornais e duas revistas. São 38 escolas, sendo três particulares, vinte e cinco municipais (incluindo-se aí os centros infantis e pré-escolares), nove estaduais e uma federal.[3] A Câmara de Vereadores conta com dez membros, mas sem sede própria.[4]

Dois rios e alguns córregos cortam o perímetro urbano do município. A população está concentrada nas margens do rio Formiga e do ribeirão Mata Cavalos, ocupando portanto sua planície inundatória. Um dos cartões postais do município é uma estátua de Cristo Redentor que situa-se no alto de um morro com vários pontos de erosão. A saudosa EFOM ainda percorre alguns bairros, um deles o Centro[5]. A principal rodovia que dá acesso à cidade, MG-050, é pertencente à empresa Nascente das Gerais, havendo uma praça de pedágio no território municipal.[6] Não há hospital público. A Prefeitura mantém um pronto-socorro nas dependências da Santa Casa e diversas UBS pelos bairros. Os casos de gravidade são encaminhados para Divinópolis, Belo Horizonte e funerárias locais.

Um dos maiores atrativos da cidade é o Lago de Furnas. Formiga é uma das 34 cidades banhadas pela represa, que possui enorme potencial turístico e de lazer. Só de royaltes o município de Formiga recebeu, em 2010, da Eletrobras cerca de R$ 1.632.000[7]. Dos 76 municípios mineiros que recebem royaltes da concessionária, Formiga é o 6º que mais recebe dinheiro pelo uso de seus recursos hídricos. Quem administra os recursos hídricos formiguenses é o Serviço Autônomo de Água e Esgoto, autarquia municipal que rendeu em outubro de 2011 R$ 3.768.100,00[8]. Quase a totalidade das residências e empresas são hidrometradas.

 Faz quase três anos que mudei de Formiga. Precisei sair para trabalhar e estudar, visto o limitado mercado de trabalho que o município possui. Francisco Fonseca estava certo ao dizer que “Já é glória nascer brasileiro, há porém quem feliz assim diga: ‘meu orgulho maior é ser mineiro e mineiro nascido em Formiga’. Eu, com toda certeza, sou um desses. Me preocupo constantemente com os rumos que a cidade toma, quais são acontecimentos mais recentes e o que os administradores municipais estão fazendo. Apesar de meu domicílio eleitoral ser outro, tenho profundo interesse nas agremiações políticas que são formadas, quem são seus participantes e quais seus planos para as eleições que se aproximam. Verifico diariamente os sítios eletrônicos da Prefeitura e Câmara, além do portal Transparência Brasil que dá informação do destino do dinheiro público de todos os municípios brasileiros. Mas, sem sombra de dúvidas, minha maior fonte de informações sobre a cidade, nos últimos tempos, tem sido o facebook.

Acompanho os diversos comentários feitos pelas principais figuras políticas de Formiga em seus perfis. Vereadores, empresários, representantes de associações, presidentes de partidos e alguns cidadãos mais antenados se manifestam diariamente na rede social. Expõem os problemas enfrentados com a administração pública, através de fotos, textos e até vídeos. É a mídia popular se construindo e com ela a força de expressão e opinião. O assunto mais recente, e mais polêmico, é sobre a realização de um show do padre Fábio de Melo.

Fábio de Melo é um sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, pertenceu inicialmente à Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, os Padres Dehonianos, atuando na diocese de Taubaté, sobretudo na comunidade Canção Nova.[9] Nasceu em Formiga, sendo ordenado em 2001. Me lembro dessa ordenação em especial, transmitida ao vivo pela TV Oeste (emissora de televisão local). Foi uma das primeiras transmissões ao vivo feitas pela emissora. Como Dehoniano ele segue bem seu carisma de “ir ao povo”, usando de sua capacidade musical para levar mensagens religiosas. Acabou fazendo sucesso e tendo projeção nacional. É, para alguns que desconhecem a História de Formiga[10], o filho mais ilustre da cidade. Em comemoração aos seus dez anos de sacerdócio realizaria, no dia 15 de dezembro, um show para a população formiguense. E então nasce a polêmica.

Ninguém garante que o show é uma comemoração ao seu sacerdócio, ou que haveria, como divulgado nas redes sociais, a participação de vários artistas. O uso de dinheiro público para financiar o show também não foi confirmado, nem negado. A única coisa de tangível que temos foi a forte campanha contra o show realizada pelo periódico “O Pergaminho”. Tudo que a mídia veicula passa antes por um filtro. Pode ser um filtro ideológico, econômico, político, social, de vários tipos. Temos então o fato midiatizado, com uma interpretação dada e facilitada devido à redação jornalística. Não existe órgão de imprensa imparcial e todos, apesar do slogan do referido jornal, possuem “o rabo preso”. Afinal precisam de anunciantes para se manterem em circulação.

É preciso deixar bem claro que não estou aqui em favor do padre. A realização do show é irrelevante e não muda em nada a situação do município. Dinheiro público não deve ser usado para interesses particulares e portanto não se pode usá-lo para financiar eventos de caráter religioso, partidário ou que vise lucro. A questão é que o episódio colocou à mostra o funcionamento das oligarquias formiguenses, além da demonstração do reacionarismo da população.

 Quem conhece Formiga um pouco mais à fundo sabe que existem algumas oligarquias dentro da cidade. Uma reprodução, em menor escala, do que acontece no país. Algumas delas se resumem a um sobrenome ou a uma atividade econômica, possuem o controle de empresas chaves para a dinâmica econômica do município, como também de órgãos de comunicação, formando assim a opinião de diversas pessoas. Dividem o poder, sem ocupar cargos. Deixam-nos para outras pessoas de forma a não aparecerem e nem se preocupar com as coisas comezinhas do dia a dia da administração pública. Sua atuação fica mais visível quando os governantes tentam fazer alguma mudança estrutural, tornando, por exemplo, a alteração do fluxo de uma rua em um embate sem precedentes (ou, na língua formiguense, “do nada”).[11] A realização dos eventos públicos seguem seus ditames e normas, atendendo seus interesses. A imensa maioria do povo é aquilo que podemos chamar de macarronada, ou massa de manobra, empurrada de um lado para o outro até ser consumida. Tentam viver normalmente dependendo direta ou indiretamente do poderio econômico dessa minoria controladora.

Há alguns dias Fábio de Melo disse em rede nacional que Formiga estava entregue às drogas, principalmente ao crack. Ele andava pelo entorno da rodoviária e percebia a juventude entregue aos vícios.[12] Observador esse rapaz, constatou o óbvio mas esqueceu de dizer que a juventude se entrega aos vícios com ajuda do dinheiro público que financia a construção de meia duzia de bares.[13] Acabou por dizer a verdade e ofender os donos do feudo. A terra imaculada, quase santa, o rincão abençoado de onde brota leite e mel foi rotulado como uma cracolândia sem limites. Agora o padre ia sofrer a fúria das oligarquias formiguenses e até seu celibato seria colocado em dúvida.

É perceptível que existe um pequeno número de pessoas que desejam controlar a opinião da população. Sabemos que o acesso a informação ainda é escasso e dificultado, ainda mais em uma cidade do interior de Minas Gerais. A conversa na beirada da janela é ainda a forma mais eficaz de saber o que acontece na cidade. Em geral, pelo que posso notar pelas opiniões transmitidas na internet, existem muitos reacionários. Se levantam contra os animais que pastam pelor jardins públicos, mas continuam de cabeça baixa quando o assunto é a estrutura de poder formiguense. O episódio do padre ajuda a entender como esta estrutura age e como as pessoas estão envolvidas nelas. Uma simples apresentação artística revela que existem interesses muito mais sombrios do que o entretenimento da população.

 Não morar mais em Formiga me permitiu analisar a cidade de uma forma mais ampla, como um observador que se afasta do quadro para melhorar a perspectiva. As leituras que fiz e experiências vividas me permitiram construir um arcabouço teórico que me ajuda a compreender o cenário. Cenário deprimente.

É preciso que a população formiguense se torna mais ativa, menos reacionária. É preciso que ela cobre dos governantes o interesse público, não o particular. Deve-se abrir os olhos e ter pensamento crítico sobre as ações dos agentes públicos. Entender quais interesses eles atendem, para quem eles governam e se há, por trás de suas ações, de forma velada, o interesse escuso. Uma das frases mais ouvidas na cidade é que “Formiga não muda, está sempre a mesma coisa”[14]. Isso é porque são sempre as mesmas pessoas compartilhando o poder e a população não percebe. É preciso mudar estas estruturas que, apesar de velhas, ainda estão firmes.

 Parece que devido à todo comentário gerado o padre cantor resolveu cancelar o show. Da mesma forma que não havia confirmação oficial da realização do evento, também não há de seu cancelamento. Atualmente a cidade se move para conseguir doadores a fim de financiar a vinda do sacerdote. É claro que tudo isso pode ser um movimento empresarial, muito bem articulado. Acabou expondo certas feridas e a precariedade com que certos setores são geridos na cidade.

Resta-nos aguardar o desfecho da história e esperar a cobrança do custo politico que toda essa situação gerou. A cidade das Areias Brancas ainda tem muito a esperar.

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[1] Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Censo de 2010

[2] Prefeitura Municipal de Formiga-MG apud IBGE

[3] Informação verificável no sítio eletrônico da Prefeitura Municipal de Formiga-MG

[4] Informação verificável no sítio eletrônico da Câmara Municipal de Formiga-MG

[5] Verificável em http://pt.wikipedia.org/wiki/Efom

[6] Verificável em http://www.nascentesmg.com.br/

[10] Como Historiador julgo Dona Beja a formiguense mais ilustre, seguida pelo intelectual Francisco Fernandes (autor do Dicionário de Verbos).

[12] Parece que isso foi dito em uma palestra/homilia, transmitida pela TV Canção Nova. Não encontrei o vídeo.

[14] A lenda mais popular da cidade é a dos tropeiros que carregavam açúcar e foram surpreendidos por corrimentos de formigas que atacavam sua carga. Em segundo lugar está a que conta que um padre enterrou uma cabeça de burro na cidade. Uns dizem que foi na Praça São Vicente Férrer, outros dizem que foi na Chapada e há quem jure de pés juntos que o Padre Remaclo foi enterrado abraçado com tal cabeça.

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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2 respostas para O padre cantor na vila dos reacionários (ou sobre como funciona o município de Formiga-MG)

  1. Me identifiquei totalmente com seu texto-
    analise.

  2. Anônimo disse:

    Incrível e elucidante seu pensamento. Parabéns, disse tudo: @edi_ger

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