Milton

“…espero um pouco mais e aprendi

a ser como o machado

que despreza o perfume do sândalo…”

Eu não me lembro quando escutei Milton pela primeira vez, muito menos qual foi a primeira música. Provavelmente foi durante a adolescência, ou quase isso. O encanto, a euforia, o vislumbre sempre fizeram parte. Uma coisa que nunca consegui explicar, nunca foi racional. O sentimento que salta ao coração ao escutar a voz de Bituca, uma música dele, do Clube. Uma relação de intimidade, quase uma trilha sonora pessoal. Relutei por muito tempo em afirmar que tinha um determinado cantor, compositor, artista favorito. E hoje, sem medo posso falar que é Milton Nascimento. Toda sua obra, seu encanto, sua genialidade me tocam a alma. De uma forma que poucas coisas neste universo me tocam. Eu não consigo explicar! É tão entranhado em meu ser, em minha personalidade, a forma como suas músicas saltam à minha mente nas diversas situações da vida, como embalam minha emoções e sentimentos, como me sinto tão pequeno face à grandiosidade de sua arte.

Não sei quantas vezes li “Os Sonhos Não Envelhecem” do Márcio Borges. Provavelmente mais que uma dezena de vezes. Cada uma delas me trouxe uma experiência diferente, uma nova forma de ver cada canção. Cada momento ali relatado sempre busquei uma identificação, mas nunca consegui. Tudo aquilo faz parte de algo superior que minha geração, incapaz de expressar seus sentimentos, não vivenciou ou vai vivenciar. Há ali um esmero pela arte de viver e tornar cada momento único e assim alimentar a arte.

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“…de novo na esquina os homens estão

todos se acham mortais

dividem a noite, a lua, até solidão…”

Pela segunda vez fui a show do Milton. E o que pode parecer muito pequeno à maioria da pessoas, o que é apenas mais uma apresentação artística para muitos, há para mim uma relação muito maior. É aqui que me atrevo a remeter à carta escrita por Milton a Márcio Borges sobre seu encontro com Jeanne Moreau. Tudo o que Jeanne representava para ele, para sua obra, para sua vida sumia diante dela. E hoje, tudo aquilo que eu sentia por Milton sumiu diante de sua presença. E era ele ali.

Realmente, não é racional. Não quero que seja. As lágrimas que me lavaram o rosto hoje são a única explicação que consigo dar. E hoje, durante Travessia, me entreguei. Era como se ele cantasse para mim e eu estivesse só diante dele. Realmente, Gonzaguinha estava certo, Travessia é uma das coisas mais belas que existem. E durante Canção da América lembrei de cada bom momento que vivi com meus amigos e me vi não conseguindo abrir os olhos, já que as lágrimas não deixavam. E naquele universo turvo de luzes e cores só a sua voz ecoava, dentro do meu coração.

Até agora não consegui processar tudo isso. O quão foi incrível e sublime. O quanto tudo isso significou para mim. E mesmo parecendo tão pouco diante de uma miríade de coisas, para a maioria das pessoas, a mim é como a apoteose que atinge a alma e nos faz plenos.

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“…sei que nada será como antes, amanhã…”

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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