Da fuga que fazemos de nós

Diante de um espelho oxidado, com um barbeador barato, desnudo em um banho frio, num banheiro apertado e fétido. Envolto com as diversas incertezas que a vida me deu, em troca das certezas vacilantes, como num escambo injusto. Não sou quase nada daquilo que eu queria ser, mas tenho muito daquilo que não queria pra mim. Sofro com as escolhas erradas, com a confiança quebrada e com as lembranças daquilo que poderia ter sido. Já não sou jovem e o viço aos poucos vai partindo do meu corpo. Lá e acolá um fio branco se aponta no cabelo, na barba. No entorno dos olhos marejados as marcas das noites mal dormidas, talvez mal vividas. O chuveiro cisma em não aquecer, quando no fundo não quero a quentura da água, mas da alma. Essa cada vez mais fria, torpe num cotidiano que não deixa marcas, só sombras. Dia após dia, consumido por uma maldita roca, tecido por uma moira cega, mas frenética. Sou esmagado pelo peso do meu coração.

Houve um tempo em que acreditei. Dei aquilo que poderia dar, na busca por algo que talvez me completasse, num poema mal rimado, um soneto mal dividido, numa expressão talvez até cafona. Minha vida se resumiu numa busca e no encontro daquilo que jamais esperava. Hoje caminho vacilante, não por medo, mas por não ter força ou vontade de pisar firme. Dizem que se eu continuar adiante, mesmo que arrastado, eu encontrarei novo sentido ou nova forma que possa tomar. Não creio. Não creio porque ancorar esperanças em algo que não depende exclusivamente de mim, não é de diligente sabedoria, pelo contrário. Se de todos os tombos que tomei, além das cicatrizes que permaneceram – por escolha minha, de forma eu sempre lembrar – é a lição de que o caminhar não pode ser desatento, muito menos sem escoras e sem descanso. Pode ser solitário, mas dificilmente será inabitado e aí temos o perigo.

A fuga que empreendemos de nós é o bálsamo que buscamos para as dores do mundo. A difícil verdade em encarar a realidade, que é cinza, as vezes incolor, raramente matizada. Da melancolia que sempre tive, como um fio que ata minh’alma ao devaneio púrpura de um Sol que se esvai para dar lugar a uma noite perene. Não sou a melhor pessoa para iluminar outras, mesmo que àqueles que insistem em me orbitar, se hipnotizam pela luz artificial, tal como moscas numa armadilha. Sou apenas caminhante, vacilante pelo peso das escolhas, que talvez encontre do outro lado da linha do horizonte a fuga de si.

Foi a busca de uma felicidade utópica que me entorpeceu e me fez desviar de meus propósitos e de minha crença. Sou aquebrantado, mas por burrice minha, por acreditar e por confiar. Por abrir o coração e ter como paga o silêncio acusatório. Hoje, diante do espelho, sei que a culpa foi minha, por não entender que há, para alguns, valores que não são os mesmos que os meus; crenças que não me abarcam e vontades que me repelem. Sou culpado por se eu, enquanto esperam – naturalmente – que eu seja outro. E o ser outro envolve abrir mão de minha essência. Sei que não sou a melhor pessoa do mundo e estou muito longe de querer ser. Mas sou verdadeiro naquilo que eu sinto e digo que sinto. E por ser assim, talvez, eu tenha que sofrer mais.

Promessas vacilantes já não me cabem mais. Só consigo crer no concreto e no realizado. Fora disso é devaneio, pode até ser poema, mas não é real. Cansei de me agarrar àquilo que não é fruto do meu suor, do meu esforço ou do meu sacrifício pessoal. Não posso fugir mais daquilo que sou, muito menos daquilo que quero pra mim. Abrir mão de minha essência, do conforto que sempre busquei para meu íntimo, é deixar de ser eu, vestir uma máscara que oculta o real. O espelho, mesmo manchado, me mostra a verdade e eu tenho que aprender a conviver com ela e abraçar ela como o resultado de tudo aquilo que eu fiz, de tudo aquilo que eu fui.

Não fujo mais de mim, da mesma forma que não espero que me aceitem. O amargo do bálsamo pelo amargo do féu. Não sei qual vale mais.

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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