Das cartas que escrevi

Houve um tempo em que escrevi cartas. Melhor: houve um tempo em que eu mandava as cartas que escrevo.

Carreguei, como num embornal, esperanças e sentimentos que nunca viram a vida fora do papel. Ali nasceram e morreram e jamais receberam resposta. Talvez por eu ter algo de juvenil em meu peito e acreditar que as pessoas possam, de alguma forma, sentir algo de concreto diante das coisas da vida. Sou dito um doido, minha avó ja me alertava, por acreditar que havia sentido no existir. E hoje percebo que no caos do cotidiano, não há muito com o que se agarrar, já que ninguém sabe exatamente o que está fazendo. Mas mesmo assim, permaneço escrevendo cartas. À mão, em letras desairosas – porque creem que serão lidas – cheias daquilo que meu coração já não suporta guardar.

Mandei várias cartas, nunca recebi respostas. Mas dizem que toda carta tem resposta, e a falta dela é uma, mesmo que seja àquela que não gostaríamos de receber. Mas mesmo assim, permaneço escrevendo e tentando buscar nas palavras um significado que me mostre, para além da razão cotidiana, qualquer coisa de concreto ou até plástica para que possa me apegar. Nem sempre tenho sucesso, mas o exercício, tal como a caminhada pela estrada durante a aurora, acaba nos surpreendendo e nos deixando quase debaixo de uma espécie de serração mística. Nas letras tortas, mal riscadas, deixo um pouco do sangue que é bombeado para além do meu existir. Sangue que já percorreu meu corpo, leu meus sentimentos, oxigenou minha mágoas e agora já não mais quer fazer parte desse todo mal formado que sou eu.

Sei que meus textos guardam um tom melancólico, que sempre fez parte da minha vida. Raramente encontrei a felicidade, que sempre me foi tirada pelo peso da responsabilidade, pela dificuldade em ser compreendido, ou pela falta de paciência com meus limites. E assim sigo, não perseguindo a felicidade, mas aguardando que os dias tragam algo de novo, mesmo que seja um sentimento velho.

Hoje resolvi meditar e tentar entender porque alguns nós persistem em minha garganta, calando meu peito. Não cheguei a conclusão nenhuma, mas a experiência mística me chama a atenção pela forma que sempre conduzi esse tipo de atividade. Vi e senti coisas, mas não sei o que elas significam. Ou se de fato possam ter algum significado. O que é de válido nisso tudo é saber que ainda há algo a ser explorado, mesmo que internamente.

Dentro das transformações que passei percebi que eu estava perdendo parte da minha essência, ao deixar de escrever. Nunca escrevi para ninguém, sempre foi pra mim. Inclusive minhas cartas. Mesmo endereçadas, dedicadas, ali sempre fui eu, por mim, para mim. É parte de mim que sai de mim. Só fui entender isso depois que li as cartas de Caio Fernando Abreu. As cartas eram todas sobre ele e para ele. Nunca me preocupou quantas pessoas estavam lendo esse blog, se alguém de fato lia qualquer das coisas que eu escrevia, ou tinha algo para ser comentado. Daqui eu tenho apenas a vontade de me expressar, da melhor forma que consigo, que é escrevendo. Não sou de pintar, desenhar, compor. Não sei dançar, cantar, nem me arrisco a fazer qualquer coisa de radical. Sei escrever, mesmo que de forma medíocre, mas que basta no intento pessoal de não solapar debaixo dos sentimentos e agruras que acumulamos dia após dia.

Permaneço escrevendo cartas, mas não tenho mais para quem mandá-las. Talvez elas vão se acumular no fundo de um baú, ou dentro de uma caixa de sapatos, guardada debaixo da cama, entre a poeira do tempo e do sentimento. Quem sabe se um dia a velhice vier, sã e forte, eu tenha coragem de abri-las novamente e medir, talvez com os olhos marejados, o quanto ter escrito elas tenha valido à pena. Por enquanto permaneço aqui.

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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Uma resposta para Das cartas que escrevi

  1. Rivelino Miranda disse:

    Tive o prazer de receber suas cartas e assim como descreve, é a sua forma de se expressar. Senti-me incluido entre os que não enviaram uma resposta, pois nunca fui bom em escrever, mas esse texto me abriu os olhos de que não é a qualidade do texto que importa, mas sim o valor que as palavras tem. Tenho você como meu irmão de grande estima e espero que tenha consciência disso, apesar de achar que eu poderia demonstrar isso mais vezes.

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