Cinza

Tem dias que são mais preguiçosos, por arrastarem consigo sentimentos que insistimos em afastar. Talvez como uma mexa de cabelo insistente, ou a inoportuna coceira de um pernilongo voraz, acabamos por nos acostumar com a situação e ela segue existindo, mas sem aquele incômodo que nos afeta. Mas numa pausa, dessas que fazemos para um café aguado, ou um cigarro amassado esquecido no bolso, acaba que aquele nó se aperta e nos traímos com o coração descompassado, na inútil fuga de não sentir.

Por hoje saí antes do Sol nascer, com a mochila às costas e as cantigas de Arthur Verocai aos ouvidos (preciso escrever sobre ele). Me peguei pensando sobre quantas vezes eu teci sonhos e alimentei esperanças, enquanto caminhava seguindo para o trabalho. E como já caminhei seguindo para o trabalho. Perdi esse hábito nos últimos anos, mas pretendo recupera-lo, não só pela saúde física – que se esvai – mas também pela saúde mental – que já se esvaiu há muito. Mas não é sobre meus fracassados projetos de emagrecimento que pretendo falar. Por hoje me peguei pensando sobre o quão fui largando meus sonhos e me deixando levar pelo cotidiano. Como se o tempo fosse infinito. Senti um amargo na garganta, como se a derrota tomasse conta de mim. Pensei em até dar meia volta e inventar qualquer desculpa para não ir trabalhar. Mas isso não resolveria nada e eu continuaria frustrado.

E ao largo do dia me peguei pensando que, há uma década atrás, eu não me contentaria com o pouco que eu me contento hoje. Percebi que vivi de migalhas, acreditando que isso seria meu sustento, no sentido de que tomei, como verdade absoluta, a possibilidade de ser aquilo que outros quiseram que eu fosse. E o dia foi longo, no sentido que perdi boa parte dele me remoendo de culpa por deixar de lado tudo aquilo que sonhei pra mim.

Me envolvi, acreditando ser aquilo uma obra terminada, ou um destino manifesto. No fim sobraram-me lágrimas, entulho, escombros e aquele seco na garganta que dá, quando você sem querer lembra. E hoje acabei por lembrar demais, tanto que engoli a comida por uma obrigação mecânica, sem perceber gosto ou textura. Afinal tudo já estava amargo por demais, seco por demais, doloroso por demais.

Sei que meus textos seguem aqui melancólicos. Como se não houvesse alegria no mundo ou no meu cotidiano. A questão é que preciso escrever, para ordenar meu universo e assim dar sentido ao meu existir. Hoje sigo melancólico, talvez daqui um tempo eu esteja escrevendo crônicas cômicas, quem sabe sonetos de cavalaria ou até poesia concreta. Sigo escrevendo, sem me preocupar se serei lido ou entendido. O que sai das pontas deus meus dedos, nasce no coração.

Hoje foi um dia cinza, de diversos tons, mas cinza.

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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