Do que sentimos e não podemos dizer

Todos me contam, num olhar de acônito, como se eu estivesse errado, que um dia vai passar. Do que hoje é memória lúgubre amanhã é memória ferial. E que chega um tempo, que não sei qual o tempo, nem memória fica e o passado se mistura como água de delta, sem que aquilo faça mais percurso dentro da gente. Da imensidão e infinitude do universo eu só consigo me perceber, das dores que tive, das que eu ainda tenho e daqueles que porventura – da natureza de estar vivo – ainda vou ter. É de um egoísmo sem tamanho, mas é o único tamanho que me cabe hoje, daquilo que mal digere, não no estômago, mas no coração, porque é sentimento mal resolvido, sentimento mal dito.

Sei que do tempo nada escapa, nem a cicatriz que insiste em doer toda vez que o clima se torna mais ou menos bravio. Da mesma forma que o coração se aperta ao passarmos por algum ou outro lugar que a memória nos desperta. Mas parece que estou fugindo do tempo, inocente e crente de que isso é possível, no intuito de um dia, talvez, conseguir falar tudo aquilo que eu sinto, tudo aquilo que eu senti, tudo aquilo que me transborda e eu não sei lidar.

Diante de mim a imensa porta, fechada, trancada, intransponível. De trás de mim uma escadaria imensa, íngrime, de degraus curtos e altos, que não me contempla uma descida tranquila. Não posso ir, nem voltar. Estou parado, aguardando. Quem sabe a porta se abre, quem sabe eu consiga descer sem me machucar. Mas hoje, pelo menos hoje, eu me sento e contemplo e espero. O que pode vir? Nada, como talvez tudo. Não tenho muito mais a perder, já que não resta muito. Também não acredito que eu tenha lá muito mais a ganhar, já que não sou merecedor de nada. E qualquer esmola prum vadio qualquer, perdido e andarilho nos campos das emoções, é fortuna sem fim, é riqueza desmedida.

Talvez eu esteja me contentando com pouco. Mas é difícil querer muito quando não se considera ser algo que o valha. Nisso, sentado entra a porta e a escadaria, eu espero. Numa oração ao tempo, pedindo que este seja forte e leve tudo para o longíquo passado; numa oração a todos que me cercam, pedindo que eu seja no mínimo acalentado. Daqui guardo o silêncio, na esperança de que um dia ele cesse, se torne diálogo, sentimento e razão, para deixar os dias menos atribulados, atormentados e até, quem sabe, mais coloridos.

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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