Escuridão

escuridaoFábio Coala sempre entendo bem aquilo que passamos…. E fazendo nossos olhos suarem. =)

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Milton

“…espero um pouco mais e aprendi

a ser como o machado

que despreza o perfume do sândalo…”

Eu não me lembro quando escutei Milton pela primeira vez, muito menos qual foi a primeira música. Provavelmente foi durante a adolescência, ou quase isso. O encanto, a euforia, o vislumbre sempre fizeram parte. Uma coisa que nunca consegui explicar, nunca foi racional. O sentimento que salta ao coração ao escutar a voz de Bituca, uma música dele, do Clube. Uma relação de intimidade, quase uma trilha sonora pessoal. Relutei por muito tempo em afirmar que tinha um determinado cantor, compositor, artista favorito. E hoje, sem medo posso falar que é Milton Nascimento. Toda sua obra, seu encanto, sua genialidade me tocam a alma. De uma forma que poucas coisas neste universo me tocam. Eu não consigo explicar! É tão entranhado em meu ser, em minha personalidade, a forma como suas músicas saltam à minha mente nas diversas situações da vida, como embalam minha emoções e sentimentos, como me sinto tão pequeno face à grandiosidade de sua arte.

Não sei quantas vezes li “Os Sonhos Não Envelhecem” do Márcio Borges. Provavelmente mais que uma dezena de vezes. Cada uma delas me trouxe uma experiência diferente, uma nova forma de ver cada canção. Cada momento ali relatado sempre busquei uma identificação, mas nunca consegui. Tudo aquilo faz parte de algo superior que minha geração, incapaz de expressar seus sentimentos, não vivenciou ou vai vivenciar. Há ali um esmero pela arte de viver e tornar cada momento único e assim alimentar a arte.

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“…de novo na esquina os homens estão

todos se acham mortais

dividem a noite, a lua, até solidão…”

Pela segunda vez fui a show do Milton. E o que pode parecer muito pequeno à maioria da pessoas, o que é apenas mais uma apresentação artística para muitos, há para mim uma relação muito maior. É aqui que me atrevo a remeter à carta escrita por Milton a Márcio Borges sobre seu encontro com Jeanne Moreau. Tudo o que Jeanne representava para ele, para sua obra, para sua vida sumia diante dela. E hoje, tudo aquilo que eu sentia por Milton sumiu diante de sua presença. E era ele ali.

Realmente, não é racional. Não quero que seja. As lágrimas que me lavaram o rosto hoje são a única explicação que consigo dar. E hoje, durante Travessia, me entreguei. Era como se ele cantasse para mim e eu estivesse só diante dele. Realmente, Gonzaguinha estava certo, Travessia é uma das coisas mais belas que existem. E durante Canção da América lembrei de cada bom momento que vivi com meus amigos e me vi não conseguindo abrir os olhos, já que as lágrimas não deixavam. E naquele universo turvo de luzes e cores só a sua voz ecoava, dentro do meu coração.

Até agora não consegui processar tudo isso. O quão foi incrível e sublime. O quanto tudo isso significou para mim. E mesmo parecendo tão pouco diante de uma miríade de coisas, para a maioria das pessoas, a mim é como a apoteose que atinge a alma e nos faz plenos.

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“…sei que nada será como antes, amanhã…”

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Ponta de Areia

Estou impressionado. Apenas.

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Leite e Mel

A primeira vez que escutei Jackson Carey Frank foi através do Electroma do Daft Punk. A voz ao mesmo tempo firme e suave, grave e serena, logo me encantou. Devo ter escutado I Want To Be Alone cerca de trinta vezes seguidas.

Jackson Carey Frank, ou Jackson C. Frank, nasceu em 1943 e praticamente teve uma vida marcada pelo trauma, depressão, tragédias pessoais e problemas psicológicos. Quando criança teve 50% do corpo queimado, devido a uma explosão na escola. Isso o afetou por toda a vida. Durante o tempo no hospital ele aprendeu a tocar violão e a cantar. Com o dinheiro do seguro vai até a Inglaterra onde grava seu primeiro (e praticamente único) álbum, produzido por Paul Simon. Jackson era tão tímido que tocava atrás de biombos.

Seus problemas psicológicos se agravam e o dinheiro do seguro começa a acabar. Ele volta para os Estados Unidos, onde casa-se e tem um filho. Seu filho, porém, morre de fibrose, o que acaba por piorar sua depressão. Ele passa a morar nas ruas, contrai problemas na tireoide e acaba sendo esquecido pela mídia. Achado por um fã ele é levado para Woodstock, onde começa a gravar alguns singles. Sua sanidade e voz já não eram mais a mesmas.

Enquanto morava nas ruas Jackson acabou levando um tiro de chumbo no olho, o que o cegou do lado esquerdo. Crianças estavam atirando, de forma indiscriminada, com espingardas de chumbo, acertando-o. Jackson Carey Frank morre de pneumonia um dia após completar 56 anos, em 1999.

Nunca fez sucesso em vida, apesar de sua canções serem executadas pelos principais cantores folks americanos. Toda a depressão, melancolia, tragédia e traumas é expresso em suas canções. Uma tristeza reconfortante, aguçada pelo dedilhado do violão e transcendente pelo tom de sua voz. Uma temática cotidiana, que nos faz refletir sobre o percurso da vida e a sua validade.

Há um sítio eletrônico mantido por fãs, desde 1997, como tributo a Jackson. Ele pode ser acessado aqui.

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I want to be alone (Dialogue)

I want to be alone
I need to touch each stone
Face the grave that I have grown
I want to be
Alone
Before all the days are gone
And darker walls are bent and torn
To pass the time of those who mourn
I want to be
Alone
Rivers that run anywhere
Are in my hand and just up the stair
Past the eyes of those who care
Who can never be
Alone
Changes that were not meant to be
Tow the hours of my memory
Sing a song of love to me
To say you must never
Never be alone
The tears of a silent rain
Seek shelter on my broken pain
And run away
But I remain
To speak the words
That sing
Of alone
I want to be alone
I need to touch each stone
Face the grave that I have grown
I want to be
Alone

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De lá até aqui

É preciso um momento de crise para nos fazer parar e observar os rumos que tomamos. E logo percebemos que desviamos do caminho anteriormente traçado. E que logo mais, permanecendo na caminhada, não chegaríamos a lugar algum.

Esta última semana que permaneci afastado de minhas atividades cotidianas, em conjunto com a breve experiência hospitalar, me fez colocar certas coisas no lugar. A vantagem de ter uma gripe forte e tomar medicamentos a níveis industriais na veia é que você acha que vai morrer a qualquer instante. E a possibilidade de morte, mesmo que ínfima perante algumas dores no corpo e uma coriza incessante, acaba por nos fazer refletir sobre nossas vidas. Enquanto eu via o soro descer a conta gotas e observava o sofrimento de meus companheiros de leito, confesso que bem piores do que o meu, refletia sobre os meus últimos anos em São João del-Rei e as transformações que passei. De todo esse tempo que aqui estou, de longe, os últimos seis meses foram os mais intensos. Por uma série de motivos que não cabem todos aqui, este ano tem se mostrado excepcional. Mas acho que vale uma pequena trajetória, mesmo que subjetiva, afim de colocar certas ideias no lugar.

Cheguei aqui antes dos vinte anos e como diria Pessoa, tendo em mim todos os sonhos do mundo. Bastou um ano de faculdade e estes sonhos se mostraram vazios. Passei a perceber o mundo de uma forma muito mais material e objetiva. Acabei por deixar de lado aquele adolescente sonhador que acreditava nos sentimentos e nas pessoas. Me tornei bem mais frio, crítico e impessoal. Somando-se a tudo isso uma decepção amorosa daquelas que endurecem almas e coração (acho que todas acabam por causar isso em maior ou menor grau). Me sentia sozinho, revoltado e acuado. Me entreguei a leituras, filmes e passeios noturnos. Passeios que me acabaram por levar a um mundo que apenas nas leituras e filmes eu achava que encontraria. Neste mundo, que se esconde dos olhos de muita gente, conheci pessoas de todos os tipos que carregavam consigo um fardo muito maior do que eu, na borda de meus vinte anos, conseguiria carregar ou até acreditar. Foi neste mundo, permeado de sombras, que aprendi que não devemos julgar ninguém por suas atitudes. Que há muito mais por detrás de um ato do que podemos perceber e uma única história de vida pode ser muito mais rica do que a de gerações reunidas. E assim, aos poucos, fui me tornando mais duro.

A vantagem de sermos adolescentes é que podemos questionar tudo ao nosso redor, e ao fim da noite, quando voltamos para nossa casa, há um prato quente de comida nos esperando. Mal sabemos, enquanto engolimos a comida, é que a imensa maioria dos adolescentes no mundo não contam com essa vantagem. Não nos tornamos adultos ao completar dezoito anos. É um processo que as vezes se instala lentamente, as vezes de uma forma muito abrupta. Comigo ocorreu em um meio termo. À medida que percebia o mundo ao meu redor e as responsabilidades apareciam à porta, conduzido pela rotina laboral e pela faculdade, fui “adultecendo-me”. Sinônimo, pelo menos a mim, de cortar todo o sentimento e esperança que nutria. Alguns se tornam adultos bem novos, outros já bem velhos. A idade é apenas um marcador do corpo e não reflete a experiência de um sujeito.

Durante a maior parte de meu tempo em São João del-Rei mantive uma atitude combativa perante os outros. O que fugia completamente daquilo que eu sempre fui e acreditei. Perdi a capacidade de entender, ouvir e sobretudo compreender. Tornei-me unilateral, opaco e insolente. A custa de perder minha espiritualidade, sentimentalismo e sorriso. Acreditava que assim estava preparado para enfrentar os “problemas da vida”. Mal sabia que estava afundando neles. O tempo passava de forma muito lenta, salpicado por crises de ansiedade e descontrole emocional. Pensei em largar a faculdade por diversas vezes. Pensei em até largar o emprego e voltar para a casa de meus pais. Pensei, não minto, em tirar a minha própria vida.

E me afoguei em uma depressão sem fim. Tudo perdeu o sentido e a cada acontecimento e dificuldade que se instalavam eu me culpava cada vez mais. E a culpa aumentava de uma forma muito estranha, me preenchia e ocupava o lugar de qualquer coisa. Engordei e adoeci. Me larguei e esperava ansiosamente a vida me largar, sem coragem de dar cabo nela. Nada me alegrava, motivava ou inspirava. Nem Ordem DeMolay, nem Rotaract Club, nada. Até um violão comprei na esperança de encontrar um refúgio entre as notas musicais.

Permaneci assim durante muito tempo. Um pouco mais de um ano. Mas o Acaso, um dos Deuses que brincam com nossa existência, nos faz o favor de dar alguns tapas bem fortes em nosso rosto, com alguns bons murros na boca do estômago e diversos chutes em nosso traseiro. Um pesadelo me fez acordar. Não era meu. E ali, ao escutar aquele relato eu comecei a vencer a inércia. Eu vi que tinha deixado para trás tudo aquilo que eu acreditava. Senti um remorso muito grande. Confesso que passei muitas madrugadas em claro chorando, sofrendo por aquilo que me tornei. Sei que isso soa estranho, mas cheguei a momentos de me encarar no espelho e não me reconhecer. De lembrar atitudes minhas e sentir extremo nojo. Eu perdi minha essência e precisava reencontra-la.

Iniciei um processo de limpeza e reflexão. Tentei analisar tudo o que passei e construí durante os últimos tempos. Contei com pessoas maravilhosas neste processo, que me ajudaram a superar muitas de minhas limitações. Me aturaram mesmo em minha fase mais degradante e tiveram a compaixão e luz de me estender a mão. Sei que não correspondi a altura de tudo aquilo que me fizeram de bom. Sei que deixei a desejar e que os decepcionei e os magoei muito. Espero que um dia eu possa retribuir a altura. À medida que percebia o quão fundo eu tinha chegado, mais fundo eu queria cavar para me esconder. Aos poucos, percebi que na verdade eu tinha que erguer a cabeça, aceitar meus atos e tirar de tudo isso algo que valesse à pena. É aquele velho ensinamento Zem que nos diz que três coisas não voltam atrás; a flecha atirada, a palavra dita e a oportunidade perdida. Fui o principal responsável por tudo o que fiz e nesse percurso sei que machuquei muita gente.

Tomando a vida com analogias, acho que passei um ciclo. Um ciclo que me permite agora encarar tudo de uma forma muito mais serena e retomar, mesmo que muito machucado, os sonhos da adolescência. Estou muito mais forte e bem mais feliz do eu era quanto coloquei os pés em São João pela primeira vez. Hoje, após ter me revirado e desmontado, consigo ver as coisas por ângulos menos obtusos, com uma amplidão muito maior. Venci, graças a muitos que acreditaram, a fossa depressiva na qual eu me encontrava. Troquei a atitude combativa pelo diálogo e a inércia pelo sorriso, afim de construir pontes e poder assim atravessa-las. Aquela sensação de tempo a esgotar, que sentia a cada dia, se foi. Tomou conta a esperança por dias melhores. E voltar a escrever aqui para mim marca essa mudança de ciclo. O prazer de poder jogar palavras que provavelmente não serão lidas, mesmo que mal escritas e sem estilo, voltou. E uma perspectiva se abre, longe de todo esse mundo o qual me entreguei.

De fato estou bem mais objetivo, mas sem largar as correntes da subjetividade. Hoje entendo que a materialidade do mundo deve se canalizar para suprir as necessidades imediatas do homem, para que esse se torne verdadeiramente livre. E a liberdade que ele almeja, apesar de tudo, não se encontra nesse mundo. E mesmo que isso soe contraditório ao ouvido de alguns, a mim é pleno de sentido e significado. Abandono a impessoalidade na publicação desse texto síntese do que senti e sinto. E espero poder encontrar, mesmo que daqui há muito tempo, um caminho mais brando.

Acho que agora, depois de todo esse tempo, posso recitar sem medo:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”

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Cajuína

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

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Acerca da Liberdade

É plena de gozo a sensação de soltar as amarras que nos mantém cativos junto ao abismo de sombra e desolação que é a incerteza. Da tristeza cotidiana de viver, de escutar os murmúrios do acaso e o ranger do ócio. Ao final de tudo isso, sinto-me livre. Após correr algumas léguas atado ao fardo do desespero e da dúvida, sinto-me livre. Enfim, sinto-me livre. Livre.

E após todo esse processo. Após sentir, mais uma vez, a dor daquilo que não foi e daquilo que poderia ter sido, me vi forte o bastante para soltar as amarras. E diante de tudo consegui me erguer. E diante do mais danoso e perverso me levantei. Agora caminho livre, pleno de entendimento, sem nada que me sufoque. Sufoque.

Desde o princípio já sabia que não poderia ser. Já sabia que estava fadado ao erro de tentar e falhar. E ébrio de esperança inócua me entreguei. Mas ao fundo mantendo o coração consternado, esperando o golpe final. E ele veio, não para matar, mas para me deixar mais forte. Forte.

Agora, livre, pleno, caminhante, sigo. Longe de qualquer amarra, livre de qualquer prisão. E por ser solto assim, entendo o risco que corro. Mas de nada vale a vida sem risco. Mas de nada vale um risco sem vida. Um risco vivido, um perigo intenso, aproveitado, puro. Puro.

Liberdade. Livre de tanta limitação, de tanto erro, de tanta angústia. Enfim livre. Livre para se encantar e apreciar, livremente entender, quem sabe amar, sobretudo viver. Deveras livre. Deveras.

 

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Ah! O Som Imaginário…

Estou tentando há algumas horas escrever algo que introduza este vídeo. Não consegui. A única definição que posso dar: lindo. Não me canso de vê-lo.

 

O Som Imaginário foi um banda de apoio de Milton Nascimento. Foi criada na década de 1960 tendo como componentes Zé Rodrix, Fredera, Wagner Tiso, Luiz Alves e Tavito. A música que eles estão tocando chama-se Feira Moderna e foi composta por Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant.

O vídeo possui algumas falhas, deve-se levar em consideração que foi gravado em 1970. É a melhor interpretação que já vi de Feira Moderna, superando inclusive a dos Paralamas do Sucesso em seu disco Acústico MTV. Se um dia eu conseguir montar uma banda, gostaria que ela tocasse no mesmo entusiasmo e qualidade do Som Imaginário.

 

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O padre cantor na vila dos reacionários (ou sobre como funciona o município de Formiga-MG)

  Formiga é um município mineiro, situado na mesorregião do Oeste de Minas, com 65128[1] habitantes distribuídos em uma área de 1503,8 Km²[2]. Fruto de uma paragem para viajantes que transitavam pela Picada de Goiás, possui 153 anos de emancipação política e uma história basicamente comum às outras centenas de municípios pelo interior do Brasil. A economia é baseada na prestação de serviços, não havendo grandes indústrias. A produção industrial é dividida em unidades fabris de pequeno e médio porte, que atuam dentro de um sistema de economia familiar. A zona rural é retalhada em diversas propriedades e comunidades que vão da subsistência ao latifúndio. A maior folha de pagamento é a da Prefeitura, seguida pela do Governo Estadual e Governo Federal. Existem cinco emissoras de rádio e uma de televisão; três jornais e duas revistas. São 38 escolas, sendo três particulares, vinte e cinco municipais (incluindo-se aí os centros infantis e pré-escolares), nove estaduais e uma federal.[3] A Câmara de Vereadores conta com dez membros, mas sem sede própria.[4]

Dois rios e alguns córregos cortam o perímetro urbano do município. A população está concentrada nas margens do rio Formiga e do ribeirão Mata Cavalos, ocupando portanto sua planície inundatória. Um dos cartões postais do município é uma estátua de Cristo Redentor que situa-se no alto de um morro com vários pontos de erosão. A saudosa EFOM ainda percorre alguns bairros, um deles o Centro[5]. A principal rodovia que dá acesso à cidade, MG-050, é pertencente à empresa Nascente das Gerais, havendo uma praça de pedágio no território municipal.[6] Não há hospital público. A Prefeitura mantém um pronto-socorro nas dependências da Santa Casa e diversas UBS pelos bairros. Os casos de gravidade são encaminhados para Divinópolis, Belo Horizonte e funerárias locais.

Um dos maiores atrativos da cidade é o Lago de Furnas. Formiga é uma das 34 cidades banhadas pela represa, que possui enorme potencial turístico e de lazer. Só de royaltes o município de Formiga recebeu, em 2010, da Eletrobras cerca de R$ 1.632.000[7]. Dos 76 municípios mineiros que recebem royaltes da concessionária, Formiga é o 6º que mais recebe dinheiro pelo uso de seus recursos hídricos. Quem administra os recursos hídricos formiguenses é o Serviço Autônomo de Água e Esgoto, autarquia municipal que rendeu em outubro de 2011 R$ 3.768.100,00[8]. Quase a totalidade das residências e empresas são hidrometradas.

 Faz quase três anos que mudei de Formiga. Precisei sair para trabalhar e estudar, visto o limitado mercado de trabalho que o município possui. Francisco Fonseca estava certo ao dizer que “Já é glória nascer brasileiro, há porém quem feliz assim diga: ‘meu orgulho maior é ser mineiro e mineiro nascido em Formiga’. Eu, com toda certeza, sou um desses. Me preocupo constantemente com os rumos que a cidade toma, quais são acontecimentos mais recentes e o que os administradores municipais estão fazendo. Apesar de meu domicílio eleitoral ser outro, tenho profundo interesse nas agremiações políticas que são formadas, quem são seus participantes e quais seus planos para as eleições que se aproximam. Verifico diariamente os sítios eletrônicos da Prefeitura e Câmara, além do portal Transparência Brasil que dá informação do destino do dinheiro público de todos os municípios brasileiros. Mas, sem sombra de dúvidas, minha maior fonte de informações sobre a cidade, nos últimos tempos, tem sido o facebook.

Acompanho os diversos comentários feitos pelas principais figuras políticas de Formiga em seus perfis. Vereadores, empresários, representantes de associações, presidentes de partidos e alguns cidadãos mais antenados se manifestam diariamente na rede social. Expõem os problemas enfrentados com a administração pública, através de fotos, textos e até vídeos. É a mídia popular se construindo e com ela a força de expressão e opinião. O assunto mais recente, e mais polêmico, é sobre a realização de um show do padre Fábio de Melo.

Fábio de Melo é um sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, pertenceu inicialmente à Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, os Padres Dehonianos, atuando na diocese de Taubaté, sobretudo na comunidade Canção Nova.[9] Nasceu em Formiga, sendo ordenado em 2001. Me lembro dessa ordenação em especial, transmitida ao vivo pela TV Oeste (emissora de televisão local). Foi uma das primeiras transmissões ao vivo feitas pela emissora. Como Dehoniano ele segue bem seu carisma de “ir ao povo”, usando de sua capacidade musical para levar mensagens religiosas. Acabou fazendo sucesso e tendo projeção nacional. É, para alguns que desconhecem a História de Formiga[10], o filho mais ilustre da cidade. Em comemoração aos seus dez anos de sacerdócio realizaria, no dia 15 de dezembro, um show para a população formiguense. E então nasce a polêmica.

Ninguém garante que o show é uma comemoração ao seu sacerdócio, ou que haveria, como divulgado nas redes sociais, a participação de vários artistas. O uso de dinheiro público para financiar o show também não foi confirmado, nem negado. A única coisa de tangível que temos foi a forte campanha contra o show realizada pelo periódico “O Pergaminho”. Tudo que a mídia veicula passa antes por um filtro. Pode ser um filtro ideológico, econômico, político, social, de vários tipos. Temos então o fato midiatizado, com uma interpretação dada e facilitada devido à redação jornalística. Não existe órgão de imprensa imparcial e todos, apesar do slogan do referido jornal, possuem “o rabo preso”. Afinal precisam de anunciantes para se manterem em circulação.

É preciso deixar bem claro que não estou aqui em favor do padre. A realização do show é irrelevante e não muda em nada a situação do município. Dinheiro público não deve ser usado para interesses particulares e portanto não se pode usá-lo para financiar eventos de caráter religioso, partidário ou que vise lucro. A questão é que o episódio colocou à mostra o funcionamento das oligarquias formiguenses, além da demonstração do reacionarismo da população.

 Quem conhece Formiga um pouco mais à fundo sabe que existem algumas oligarquias dentro da cidade. Uma reprodução, em menor escala, do que acontece no país. Algumas delas se resumem a um sobrenome ou a uma atividade econômica, possuem o controle de empresas chaves para a dinâmica econômica do município, como também de órgãos de comunicação, formando assim a opinião de diversas pessoas. Dividem o poder, sem ocupar cargos. Deixam-nos para outras pessoas de forma a não aparecerem e nem se preocupar com as coisas comezinhas do dia a dia da administração pública. Sua atuação fica mais visível quando os governantes tentam fazer alguma mudança estrutural, tornando, por exemplo, a alteração do fluxo de uma rua em um embate sem precedentes (ou, na língua formiguense, “do nada”).[11] A realização dos eventos públicos seguem seus ditames e normas, atendendo seus interesses. A imensa maioria do povo é aquilo que podemos chamar de macarronada, ou massa de manobra, empurrada de um lado para o outro até ser consumida. Tentam viver normalmente dependendo direta ou indiretamente do poderio econômico dessa minoria controladora.

Há alguns dias Fábio de Melo disse em rede nacional que Formiga estava entregue às drogas, principalmente ao crack. Ele andava pelo entorno da rodoviária e percebia a juventude entregue aos vícios.[12] Observador esse rapaz, constatou o óbvio mas esqueceu de dizer que a juventude se entrega aos vícios com ajuda do dinheiro público que financia a construção de meia duzia de bares.[13] Acabou por dizer a verdade e ofender os donos do feudo. A terra imaculada, quase santa, o rincão abençoado de onde brota leite e mel foi rotulado como uma cracolândia sem limites. Agora o padre ia sofrer a fúria das oligarquias formiguenses e até seu celibato seria colocado em dúvida.

É perceptível que existe um pequeno número de pessoas que desejam controlar a opinião da população. Sabemos que o acesso a informação ainda é escasso e dificultado, ainda mais em uma cidade do interior de Minas Gerais. A conversa na beirada da janela é ainda a forma mais eficaz de saber o que acontece na cidade. Em geral, pelo que posso notar pelas opiniões transmitidas na internet, existem muitos reacionários. Se levantam contra os animais que pastam pelor jardins públicos, mas continuam de cabeça baixa quando o assunto é a estrutura de poder formiguense. O episódio do padre ajuda a entender como esta estrutura age e como as pessoas estão envolvidas nelas. Uma simples apresentação artística revela que existem interesses muito mais sombrios do que o entretenimento da população.

 Não morar mais em Formiga me permitiu analisar a cidade de uma forma mais ampla, como um observador que se afasta do quadro para melhorar a perspectiva. As leituras que fiz e experiências vividas me permitiram construir um arcabouço teórico que me ajuda a compreender o cenário. Cenário deprimente.

É preciso que a população formiguense se torna mais ativa, menos reacionária. É preciso que ela cobre dos governantes o interesse público, não o particular. Deve-se abrir os olhos e ter pensamento crítico sobre as ações dos agentes públicos. Entender quais interesses eles atendem, para quem eles governam e se há, por trás de suas ações, de forma velada, o interesse escuso. Uma das frases mais ouvidas na cidade é que “Formiga não muda, está sempre a mesma coisa”[14]. Isso é porque são sempre as mesmas pessoas compartilhando o poder e a população não percebe. É preciso mudar estas estruturas que, apesar de velhas, ainda estão firmes.

 Parece que devido à todo comentário gerado o padre cantor resolveu cancelar o show. Da mesma forma que não havia confirmação oficial da realização do evento, também não há de seu cancelamento. Atualmente a cidade se move para conseguir doadores a fim de financiar a vinda do sacerdote. É claro que tudo isso pode ser um movimento empresarial, muito bem articulado. Acabou expondo certas feridas e a precariedade com que certos setores são geridos na cidade.

Resta-nos aguardar o desfecho da história e esperar a cobrança do custo politico que toda essa situação gerou. A cidade das Areias Brancas ainda tem muito a esperar.

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[1] Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Censo de 2010

[2] Prefeitura Municipal de Formiga-MG apud IBGE

[3] Informação verificável no sítio eletrônico da Prefeitura Municipal de Formiga-MG

[4] Informação verificável no sítio eletrônico da Câmara Municipal de Formiga-MG

[5] Verificável em http://pt.wikipedia.org/wiki/Efom

[6] Verificável em http://www.nascentesmg.com.br/

[10] Como Historiador julgo Dona Beja a formiguense mais ilustre, seguida pelo intelectual Francisco Fernandes (autor do Dicionário de Verbos).

[12] Parece que isso foi dito em uma palestra/homilia, transmitida pela TV Canção Nova. Não encontrei o vídeo.

[14] A lenda mais popular da cidade é a dos tropeiros que carregavam açúcar e foram surpreendidos por corrimentos de formigas que atacavam sua carga. Em segundo lugar está a que conta que um padre enterrou uma cabeça de burro na cidade. Uns dizem que foi na Praça São Vicente Férrer, outros dizem que foi na Chapada e há quem jure de pés juntos que o Padre Remaclo foi enterrado abraçado com tal cabeça.

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