A miséria da alma e do corpo

_ Mamãe, vende eu pra Dona Julieta, porque lá tem comida gostosa.

Na inocência da pequena Vera, nos relatos de Carolina Maria de Jesus, vislumbramos os limites da vida humana, regrada à fome, à tristeza e à aflitiva incerteza do amanhã.

O Quarto de Despejo — diário de uma favelada, publicado em 1960, relata o cotidiano da extinta favela do Canindé, nas margens do rio Tietê, numa São Paulo que crescia e marginalizava cada vez mais. Com um português simples, por vezes com erros, um relato visceral do que é a fome e o Brasil real, sofrido dia após dia com o descaso do poder público e o preconceito da cor. Carolina, numa narrativa que por vezes nos enfadonha — acorda, sofre, cata, sofre, fome, sofre, fome, sofre, fome, fome, fome, fome — relata seu cotidiano como catadora de papel e metais, contando os centavos para conseguir dar de comer aos filhos. Revirando lixo, comendo aquilo que é descartado, por vezes envenenado. O cotidiano da favela, seus conflitos, suas personagens. Homens, mulheres, crianças. Fome, pobreza, álcool, morte, briga, prostituição. Caridade como afago da alma, justiça social como ilusão. O diário, documento histórico, traz figuras como Adhemar de Barros, Carvalho Pinto, Juscelino Kubistcheck, as eleições de 1958. A personagem Carolina é real, mulher pobre e preta, que nasceu, viveu e morreu na pobreza, apesar do sucesso de sua obra.

Carolina me ensinou a valorizar o simples, o comum. Me ensinou que a miséria humana é algo que nem Dante, em seu Inferno, conseguiu descrever. Mas ela, vivificada naquilo, maltrapilha que acordava na madrugada para catar pulgas, dava graças à Deus por conseguir lavar suas roupas, humilhada pelo suor de seu corpo, que dia após dia se supliciava para sustentar três filhos.

Carolina Maria de Jesus, na Favela do Canindé

“16 de julho de 1958 — (…) Não havia papel nas ruas. Passei no Frigorífico. Havia jogado muitas linguiças no lixo. Separei as que não estavam estragadas. (…) Eu não quero enfraquecer nem posso comprar. E tenho um apetite de Leão. Então recorro ao lixo.”

“24 de julho de 1958 — Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei em até suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estomago. E por infelicidade eu amanheci com fome. Os meninos ganharam uns pães duro, mas estava recheiado de pernas de barata. Joguei fora e tomamos café. Puis o unico feijão pra cosinhar.”

Carolina me ensinou a agradecer cada oportunidade que tenho na vida. Me ensinou a agradecer até as lágrimas que choro, a tristeza que tenho. A não reclamar, nem murmurar. Me ensinou que existe gente que sofre de verdade, que no nosso egoísmo diário há muito mais do que a caridade afetuosa, a parcelar a compra do terreno divino. O diário nos entra na alma como faca quente e nos faz pensar sobre as razões que nos levam a sofrer.

Para os orientais todo o sofrimento vem do apego. O apego que temos ao material, como também ao espiritual, nos faz sofrer. Nos faz criar expectativas que quando não são cumpridas, pelos mais diversos motivos, nos causam dor, queimam nosso alma, nos jogam a uma espécie de danação letárgica. O sofrimento que cultivamos, por muitas vezes, é uma ilusão. Não é como a fome de Carolina, de seus filhos, que era remediada muitas vezes com o que era encontrado no lixo, cozinhado no barracão mal arranjado entre a lama. Penso que a cada dia temos uma oportunidade nova em sermos gratos pelas possibilidades que nos desdobram. E que o mundo é justo, nos dando o entendimento — muitas vezes de difícil compreensão — que tudo tem um preço. E o que nos parece muitas vezes comezinho, para outro é a dor que inflige mais duramente seu espírito. A depressão que me acomete, a tristeza e a dificuldade em reagir perante os problemas, se torna tão pequena diante do que Carolina viveu, sofreu.

Somos nada, poeira de estrelas, vazios e simplórios ante a imensidão do Universo. Mesmo ao ateu, descrente do metafísico, a insignificância humana é visível. Bilhões de vidas que correm, rumo a algo desconhecido, a uma possibilidade de redenção, física, material ou até espiritual. Carolina só queria uma casa de alvenaria e comida na mesa. A alvenaria era para não sofrer mais com as goteiras, as pulgas, o chão de terra batida. E nós aqui, querendo entender o mundo, a vida, com problemas dos mais diversos. Quanto tá o quilo do pão? Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes da vida.

Nem todos tem pão. Carolina não tinha. Quando tinha era repartido com seus três filhos e no coração de mãe sofreu, ao vê-los com fome, implorar pelo pão que não tinha. Fome… Fome…

“13 de maio de 1958 — (…) Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou a pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha para Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome!”

Carolina posa, na janela de seu barraco, para divulgação de sua obra.

Publicado originalmente aqui

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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