De lá até aqui

É preciso um momento de crise para nos fazer parar e observar os rumos que tomamos. E logo percebemos que desviamos do caminho anteriormente traçado. E que logo mais, permanecendo na caminhada, não chegaríamos a lugar algum.

Esta última semana que permaneci afastado de minhas atividades cotidianas, em conjunto com a breve experiência hospitalar, me fez colocar certas coisas no lugar. A vantagem de ter uma gripe forte e tomar medicamentos a níveis industriais na veia é que você acha que vai morrer a qualquer instante. E a possibilidade de morte, mesmo que ínfima perante algumas dores no corpo e uma coriza incessante, acaba por nos fazer refletir sobre nossas vidas. Enquanto eu via o soro descer a conta gotas e observava o sofrimento de meus companheiros de leito, confesso que bem piores do que o meu, refletia sobre os meus últimos anos em São João del-Rei e as transformações que passei. De todo esse tempo que aqui estou, de longe, os últimos seis meses foram os mais intensos. Por uma série de motivos que não cabem todos aqui, este ano tem se mostrado excepcional. Mas acho que vale uma pequena trajetória, mesmo que subjetiva, afim de colocar certas ideias no lugar.

Cheguei aqui antes dos vinte anos e como diria Pessoa, tendo em mim todos os sonhos do mundo. Bastou um ano de faculdade e estes sonhos se mostraram vazios. Passei a perceber o mundo de uma forma muito mais material e objetiva. Acabei por deixar de lado aquele adolescente sonhador que acreditava nos sentimentos e nas pessoas. Me tornei bem mais frio, crítico e impessoal. Somando-se a tudo isso uma decepção amorosa daquelas que endurecem almas e coração (acho que todas acabam por causar isso em maior ou menor grau). Me sentia sozinho, revoltado e acuado. Me entreguei a leituras, filmes e passeios noturnos. Passeios que me acabaram por levar a um mundo que apenas nas leituras e filmes eu achava que encontraria. Neste mundo, que se esconde dos olhos de muita gente, conheci pessoas de todos os tipos que carregavam consigo um fardo muito maior do que eu, na borda de meus vinte anos, conseguiria carregar ou até acreditar. Foi neste mundo, permeado de sombras, que aprendi que não devemos julgar ninguém por suas atitudes. Que há muito mais por detrás de um ato do que podemos perceber e uma única história de vida pode ser muito mais rica do que a de gerações reunidas. E assim, aos poucos, fui me tornando mais duro.

A vantagem de sermos adolescentes é que podemos questionar tudo ao nosso redor, e ao fim da noite, quando voltamos para nossa casa, há um prato quente de comida nos esperando. Mal sabemos, enquanto engolimos a comida, é que a imensa maioria dos adolescentes no mundo não contam com essa vantagem. Não nos tornamos adultos ao completar dezoito anos. É um processo que as vezes se instala lentamente, as vezes de uma forma muito abrupta. Comigo ocorreu em um meio termo. À medida que percebia o mundo ao meu redor e as responsabilidades apareciam à porta, conduzido pela rotina laboral e pela faculdade, fui “adultecendo-me”. Sinônimo, pelo menos a mim, de cortar todo o sentimento e esperança que nutria. Alguns se tornam adultos bem novos, outros já bem velhos. A idade é apenas um marcador do corpo e não reflete a experiência de um sujeito.

Durante a maior parte de meu tempo em São João del-Rei mantive uma atitude combativa perante os outros. O que fugia completamente daquilo que eu sempre fui e acreditei. Perdi a capacidade de entender, ouvir e sobretudo compreender. Tornei-me unilateral, opaco e insolente. A custa de perder minha espiritualidade, sentimentalismo e sorriso. Acreditava que assim estava preparado para enfrentar os “problemas da vida”. Mal sabia que estava afundando neles. O tempo passava de forma muito lenta, salpicado por crises de ansiedade e descontrole emocional. Pensei em largar a faculdade por diversas vezes. Pensei em até largar o emprego e voltar para a casa de meus pais. Pensei, não minto, em tirar a minha própria vida.

E me afoguei em uma depressão sem fim. Tudo perdeu o sentido e a cada acontecimento e dificuldade que se instalavam eu me culpava cada vez mais. E a culpa aumentava de uma forma muito estranha, me preenchia e ocupava o lugar de qualquer coisa. Engordei e adoeci. Me larguei e esperava ansiosamente a vida me largar, sem coragem de dar cabo nela. Nada me alegrava, motivava ou inspirava. Nem Ordem DeMolay, nem Rotaract Club, nada. Até um violão comprei na esperança de encontrar um refúgio entre as notas musicais.

Permaneci assim durante muito tempo. Um pouco mais de um ano. Mas o Acaso, um dos Deuses que brincam com nossa existência, nos faz o favor de dar alguns tapas bem fortes em nosso rosto, com alguns bons murros na boca do estômago e diversos chutes em nosso traseiro. Um pesadelo me fez acordar. Não era meu. E ali, ao escutar aquele relato eu comecei a vencer a inércia. Eu vi que tinha deixado para trás tudo aquilo que eu acreditava. Senti um remorso muito grande. Confesso que passei muitas madrugadas em claro chorando, sofrendo por aquilo que me tornei. Sei que isso soa estranho, mas cheguei a momentos de me encarar no espelho e não me reconhecer. De lembrar atitudes minhas e sentir extremo nojo. Eu perdi minha essência e precisava reencontra-la.

Iniciei um processo de limpeza e reflexão. Tentei analisar tudo o que passei e construí durante os últimos tempos. Contei com pessoas maravilhosas neste processo, que me ajudaram a superar muitas de minhas limitações. Me aturaram mesmo em minha fase mais degradante e tiveram a compaixão e luz de me estender a mão. Sei que não correspondi a altura de tudo aquilo que me fizeram de bom. Sei que deixei a desejar e que os decepcionei e os magoei muito. Espero que um dia eu possa retribuir a altura. À medida que percebia o quão fundo eu tinha chegado, mais fundo eu queria cavar para me esconder. Aos poucos, percebi que na verdade eu tinha que erguer a cabeça, aceitar meus atos e tirar de tudo isso algo que valesse à pena. É aquele velho ensinamento Zem que nos diz que três coisas não voltam atrás; a flecha atirada, a palavra dita e a oportunidade perdida. Fui o principal responsável por tudo o que fiz e nesse percurso sei que machuquei muita gente.

Tomando a vida com analogias, acho que passei um ciclo. Um ciclo que me permite agora encarar tudo de uma forma muito mais serena e retomar, mesmo que muito machucado, os sonhos da adolescência. Estou muito mais forte e bem mais feliz do eu era quanto coloquei os pés em São João pela primeira vez. Hoje, após ter me revirado e desmontado, consigo ver as coisas por ângulos menos obtusos, com uma amplidão muito maior. Venci, graças a muitos que acreditaram, a fossa depressiva na qual eu me encontrava. Troquei a atitude combativa pelo diálogo e a inércia pelo sorriso, afim de construir pontes e poder assim atravessa-las. Aquela sensação de tempo a esgotar, que sentia a cada dia, se foi. Tomou conta a esperança por dias melhores. E voltar a escrever aqui para mim marca essa mudança de ciclo. O prazer de poder jogar palavras que provavelmente não serão lidas, mesmo que mal escritas e sem estilo, voltou. E uma perspectiva se abre, longe de todo esse mundo o qual me entreguei.

De fato estou bem mais objetivo, mas sem largar as correntes da subjetividade. Hoje entendo que a materialidade do mundo deve se canalizar para suprir as necessidades imediatas do homem, para que esse se torne verdadeiramente livre. E a liberdade que ele almeja, apesar de tudo, não se encontra nesse mundo. E mesmo que isso soe contraditório ao ouvido de alguns, a mim é pleno de sentido e significado. Abandono a impessoalidade na publicação desse texto síntese do que senti e sinto. E espero poder encontrar, mesmo que daqui há muito tempo, um caminho mais brando.

Acho que agora, depois de todo esse tempo, posso recitar sem medo:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”

Sobre Bruno Henrique Fernandes

Nasci em Formiga, interior de Minas Gerais, em 1991. Filho de um lar de pais amorosos, preocupados e incentivadores. Em minha adolescência pude participar de vários grupos e organizações, tendo destaque o Interact Club e a Ordem DeMolay. Sou graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei e atualmente faço meu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalho como servidor público, Técnico Administrativo em Educação, na UFSJ desde 2009, tendo exercido a maior parte das minhas funções na área acadêmica. No campo da História meus interesses perpassam pelas sociabilidades ilustradas, religiosas e esotéricas. Minha pesquisa de Mestrado foca em compreender a Questão Religiosa, conflito entre maçonaria e igreja católica no Brasil no final do século XIX, através dos periódicos, levando em consideração a província de Minas Gerais. Tenho desenvolvido estudos sobre a historiografia maçônica e de algumas organizações que se instalaram no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Sou Umbandista, praticante de Umbanda Omolokô. Sou filho de Xangô e Iemanjá, do Ilê Axé Omolokô Ti Oxóssi Ogbani. Entendo a Umbanda como o culto à minha ancestralidade e ao sagrado que vive em cada um de nós. Xangô é o fogo que alimenta meu espírito e Iemanjá é a água que sacia a minha sede.
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Uma resposta para De lá até aqui

  1. Raína disse:

    Que parceiros fortes e leais te acompanhem nos seus sonhos e caminhadas. Não se pode e não se quer caminhar sozinho ! =)

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